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Ensaio e escritas liminares

Desde a sua origem moderna - a instigante aventura de Montaigne -, o ensaio habilita um espaço discursivo de carácter experimental no qual o sujeito se põe em jogo na deriva de uma escrita provisional, assistemática e descontínua, que prescinde tanto do direcionamento do plano prévio, como das certezas conclusivas. Essa disposição experimental liberta a escrita ensaística das grades classificatórias dos gêneros literários e dos saberes disciplinares, propiciando a configuração de textualidades de fronteiras permeáveis que corroem as convenções discursivas. Se na atualidade o domínio da literatura perdeu a nitidez de suas demarcações e se expande em direção de outros discursos e linguagens, colocando em questão a sua especificidade e autonomia, parece oportuno revisitar a escrita ensaística como prática de exploração liminar que desestabiliza as formas culturalmente convencionadas da literatura. Os limiares do ensaio com o romance, a autobiografia, a crônica, o fragmento, a carta, etc, instauram um espaço de indagação que, ao impulsionar a literatura em direção do impensado, demandam novas abordagens críticas.

No entanto, a disposição experimental do ensaio não se restringe a uma reconfiguração de ordem estética das formas discursivas, enquanto crítica cultural de relevante tradição moderna, a escrita ensaística comporta uma dimensão ética na medida em que o sujeito do ensaio se coloca em jogo e formula para si mesmo problemas de valor e de sentido. Esse aspecto da prática ensaística não é menor se atendermos à intervenção socialmente crítica à qual ela aspira.   

Este número de Remate de Males propõe uma reflexão crítica voltada para o ensaio e as escritas liminares como práticas discursivas que problematizam e desestabilizam as formas culturalmente convencionadas do literário. Esperamos receber contribuições acerca de diferentes literaturas.

 

 

Organizadora:

Ana Cecilia Olmos (USP/CNPq)

 

Data limite de recepção de artigos: 15 de abril de 2017.