Artigo destaque da Revista Terrae Didatica – Estratigrafia e sistemas deposicionais do Supergrupo Espinhaço e Grupos Bambuí e Macaúbas: roteiro de campo na Serra do Espinhaço Meridional (MG)

Artigo destaque da Revista Terrae Didatica – Estratigrafia e sistemas deposicionais do Supergrupo Espinhaço e Grupos Bambuí e Macaúbas: roteiro de campo na Serra do Espinhaço Meridional (MG)

Celso Dal Ré Carneiro

Trabalhos de campo são absolutamente essenciais na formação de geólogos, em qualquer parte do mundo. No Brasil, desde os pioneiros cursos de graduação em Geologia dos anos 1950, cada curso manteve alto nível de interesse e atenção com as atividades de campo.

A complexa evolução geológica da magnífica Serra do Espinhaço Meridional, que atravessa a porção centro-norte do Estado de Minas Gerais, desafiou os autores Uhlein et al. (2017) a sistematizar conhecimentos e a compartilhar experiências práticas em um Roteiro de campo sobre a Estratigrafia e os sistemas deposicionais do Supergrupo Espinhaço e Grupos Bambuí e Macaúbas recentemente publicado por Terræ Didatica. Importante característica do roteiro é a utilização de recursos da mais alta tecnologia de representação espacial, acompanhados pela descrição pormenorizada de pontos de parada meticulosamente selecionados pelos autores. O leitor encontra em profusão, ao longo do roteiro, indicações cuidadosas de caminhamentos, percursos, mapas, perfis geológicos, esquemas, belas fotografias e imagens.

No mesmo número da revista, o trabalho de Santos et al. (2017) focaliza outra preciosidade para atividades de campo de treinamento em cursos técnicos e de graduação, nos campos de Geologia e Mineração: A Mina-Escola de Santa Luzia-PB: um laboratório didático para estudantes de Mineração/Geologia. Ricamente ilustrado, o trabalho apresenta pormenores das escavações abandonadas pelas atividades de lavra de minérios nas proximidades da cidade de Santa Luzia, Estado da Paraíba e descreve maneiras de utilizá-las em atividades didáticas.

Os dois artigos ultrapassam, contudo, o mero aspecto da visitação pública proporcionada pelos lugares escolhidos e ganham maior interesse se examinarmos brevemente a história da implantação dos cursos de Geologia no País. Como nosso foco está em Diamantina, MG, devemos citar também a criação de um patrimônio intangível que atende há décadas aos cursos de Geologia brasileiros: o Centro de Geologia Eschwege (CGE), implantado em outubro de 1969.

A formação de geólogos foi considerada uma questão de Estado nas décadas 1940-1950, como consequência da criação de grandes empresas estatais e do processo de industrialização do País (Azevedo & Terra 2008). Na época, as autoridades entenderam que a introdução de uma carreira de geólogos profissionais interromperia o incansável fluxo de especialistas e consultores estrangeiros e as levaram a implantar a CAGE – Campanha Nacional de Formação de Geólogos (BARROSO, 1996), em histórica decisão assinada em 18 janeiro de 1957. Há dois meses comemoraram-se 51 anos da divulgação do importante documento.

Roteiros de campo como este publicado por Uhlein e colaboradores constituem contribuição inestimável para atender à preocupação de coordenadores de curso com a quantidade e a qualidade das atividades de campo (NUMMER et al. 2005; FANETINEL et al. 2008). A comunidade é praticamente unânime em relação à ideia de que as grades curriculares de todos os cursos devam incluir expressiva carga horária de trabalhos de campo. Desde a Comissão de Especialistas de Ensino de Geologia e Oceanografia, cujo relatório foi apresentado ao MEC em 1999 (BRASIL, 1999), existe certo consenso sobre a importância do contato com a natureza para ajudar os geólogos a formar competências e habilidades relacionadas à observação criteriosa e ao trabalho incessante de investigação que abre as portas para construções mentais cada vez mais sofisticadas. Com certo exagero, alguns colegas chegam a afirmar que “Geologia se aprende pelos pés”.

Nos campos da Geologia e Engenharia Geológica, as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Geologia e Engenharia Geológica (DCNGEG), começaram a ser estabelecidas em fins de 2012 quando o Conselho Nacional de Educação aprovou relatório do Prof. Dr. Luiz Roberto Liza Curi (BRASIL, 2012). No início de 2015 o MEC instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais (BRASIL, 2015) para esses cursos de graduação, abrangendo o bacharelado em Geologia e em Engenharia Geológica. Os documentos estabelecem que a carga horária mínima de trabalhos de campo não pode ser inferior a 20% da carga horária mínima de 3.600 horas de curso. Talvez uma das principais contribuições dos dois artigos publicados em Terræ Didatica seja uma recomendação implícita para fortalecimento e especialização das atividades de campo na formação de profissionais das áreas ligadas às Ciências da Terra.

Centro de Geologia Eschwege

A trajetória do Centro de Geologia Eschwege é descrita pelo site http://csr.ufmg.br/geoespinhaco/pesquisa. htm da seguinte forma:

Instituto Eschwege foi o nome inicial do Centro de Geologia Eschwege, um espaço de ciência referência no ensino de mapeamento geológico. Mantido inicialmente com recursos financeiros do governo alemão o Instituto funcionou na casa da Rua Direita, 36 (ao lado do Museu de Diamante), em 1972, foi adquirida a casa da Rua Silvério Lessa. Em 1978, quando cessou a subvenção alemã, a UFMG, através do Ministério da Educação, MEC, adquiriu os dois casarões interligados pelo passadiço para ali instalar o Instituto Eschwege, que, a partir desse momento, 1979, passou a se chamar Centro de Geologia Eschwege, CGE. O “Eschwege” se fixou na rotina do ensino da geologia dos cursos de graduação no Brasil e desempenhou papel fundamental para a formação de centenas de geólogos brasileiros e para a realização de mais de sete dezenas de teses de doutoramento e dissertações de mestrado defendidas em universidades brasileiras e alemãs.

A beleza cênica da região, o desafio da descoberta científica e sobretudo o interesse pela capacitação de alto nível de geólogos alemães e brasileiros motivaram equipes de geólogos, pesquisadores, professores e estudantes alemães a implantar o CGE na cidade de Diamantina (MG). Seu criador foi o professor Reinhard Pflug, graduado em Geologia na Universidade de Bonn em 1955, com o título de Doutor em Ciências Naturais pela mesma universidade em 1958. Professor da Escola Nacional de Geologia do Rio de Janeiro (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ), Pflug pesquisou regiões do sul do Brasil e oeste mineiro, mas interessou-se pela Serra do Espinhaço Meridional, onde desenvolvera trabalhos de mapeamento geológico e estudos sedimentológicos, estratigráficos e estruturais. No site http://csr.ufmg.br/geoespinhaco/pesquisa.htm observamos que:

A experiência de Pflug no território mineiro, o apoio e reconhecimento que sempre obteve do DNPM e de geólogos eminentes como Othon Leonardos e, por fim, o seu status acadêmico em Heidelberg contribuíram para convencer os governos alemão e brasileiro sobre a pertinência de um projeto de colaboração entre os dois países para dar continuidade às pesquisas geológicas na Serra do Espinhaço.

A visão sistêmica dos trabalhos de campo

Trabalhos de campo nas duas regiões podem explorar as belas paisagens locais para que os participantes sejam capazes de decompor a estrutura física, química e biótica da superfície do planeta e construir um novo olhar sobre a Terra, sob a moderna perspectiva dos geossistemas terrestres. Sob este ponto de vista, parte da energia interna do planeta e da energia recebida do Sol promovem interação com as demais esferas (ou geossistemas). Assim, a leitura das paisagens, das rochas e seus arranjos espaciais privilegia a base geológica como sendo a parte fundamental sobre a qual se desenvolve a vida e as feições da superfície terrestre, sempre em permanente transformação.

Referências

AZEVEDO, R. L. M. de; TERRA G. J. S. 2008. A busca do petróleo, o papel da Petrobras e o ensino da Geologia no Brasil. B. Geoci. Petrobras, v. 16, n. 2, 373-420, 2008.

BARROSO, J. A. Os 40 anos da CAGE: Campanha Nacional de Formação de Geólogos, os cursos de geologia no Brasil e, em particular, no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: UFRJ, Anuário do Instituto de Geociências, v. 19, 143-156, 1996. Disponível em: <http://www.ppegeo.igc.usp.br/index.php/anigeo/article/view/1744>. Acesso em 14 de mar. 2018.

BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. 2012. Resolução CNE/CES n. 387/2012, de 7 novembro de 2012. Institui as diretrizes curriculares nacionais para o curso de graduação em Geologia e em Engenharia Geológica, bacharelados. Brasília (DF), 7 nov. 2012. (Relator Luiz Roberto Liza Curi, Proc. Nº: 23001.000110/2007-41).

BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. 2015. Resolução 1, de 6 de janeiro de 2015. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação na área da Geologia, abrangendo os cursos de bacharelado em Geologia e em Engenharia Geológica e dá outras providências. Brasília (DF), 6 jan. 2015.

FANTINEL, L. Et al. Diretrizes Curriculares para os Cursos de Graduação em Geologia e Engenharia Geológica. Terræ Didatica, v. 4, n. 1, 85-89, 2008. Disponível em: <http://www.ige.unicamp.br/terraedidatica/>.

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, MEC. Comissão de Especialistas de Ensino de Geologia e Oceanografia, Portaria no 146 SESu/MEC de 10 de março de 1998, Sub-Comissão de Geologia: Newton Souza Gomes, Paulo Milton Barbosa Landim e Reinhardt Adolfo Fuck. 1999. Diretrizes Curriculares para os Cursos de Graduação em Geologia e Engenharia Geológica. Brasília: MEC. 9 p.

NUMMER, A. R. Et al. Diretrizes Curriculares para os Cursos de Graduação em Geologia e Engenharia Geológica. Terræ Didatica, v. 1, n. 1, 64- 69, 2005. Disponível em: <http://www.ige.unicamp.br/terraedidatica/>

SANTOS, L. C. M. L., AQUINO, I. B. M., NUNES, B. A. A Mina-Escola de Santa Luzia-PB: um laboratório didático para estudantes de Mineração/Geologia. Terræ Didatica, v. 13, n. 3, 244-257, 2017. Disponível em: <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/td/article/view/8650960>. DOI: 10.20396/td.v13i3.8650960.

UHLEIN, A. Estratigrafia e sistemas deposicionais do Supergrupo Espinhaço e Grupos Bambuí e Macaúbas: roteiro de campo na Serra do Espinhaço Meridional (MG). Terræ Didatica, v. 13, n. 3, 244-257, 2017. Disponível em: <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/td/article/view/8650963>. DOI: 10.20396/td.v13i3.8650963.

Como citar esse post: 

CARNEIRO, Celso Dal Ré. Artigo destaque da Revista Terrae Didatica – Estratigrafia e sistemas deposicionais do Supergrupo Espinhaço e Grupos Bambuí e Macaúbas: roteiro de campo na Serra do Espinhaço Meridional (MG). Blog PPEC, Campinas, v.4, n.2, abr. 2018. ISSN 2526-9429. Disponível em: <http://periodicos.sbu.unicamp.br/blog/index.php/2018/04/03/terrae/>.  Acesso em: dia mês abreviado ano.

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