Chamada Dossiê Conceição 2022

2022-05-11

Artes performativas: ancestralidades, cosmopolíticas, espiritualidades

O aguçamento das crises ecológicas, políticas, sociais e culturais nos últimos anos, no Brasil e no mundo, tem demandado uma renovação das perspectivas teóricas e dos dispositivos de criação no campo das artes performativas, um dos mais afetados por esta situação. Observa-se o fortalecimento de um pensamento crítico que aprofunda perspectivas sobre processos coloniais, problematizando o racismo, o genocídio de indígenas e as múltiplas formas de violência contra grupos minoritários. Ao mesmo tempo, em meio a tais discussões, emergem termos, expressões e conceitos nem sempre suficientemente investigados, que apontam para modos de sentir, perceber e agir vinculados a cosmovisões e formas de espiritualidade e religiosidade não hegemônicas, articulando-se com diferentes dimensões da vida coletiva.

A palavra “ancestralidade”, por exemplo, é por vezes evocada para aludir uma experiência da memória de um grupo, frequentemente abafada por narrativas da história oficial, fortemente marcadas pelo colonialismo. Ela nos traz uma relação com um tempo que retorna e se atualiza, por processos de transmissão e transformação de tradições. Em contraponto ao individualismo ocidental moderno, enfatizam-se os elos temporais que conferem outra dimensão e densidade para pessoas e grupos humanos, com profundos efeitos políticos, culturais e existenciais. Mais do que isso, a ancestralidade pode evocar também conexões entre o mundo humano e o não humano, a natureza, as entidades e forças míticas e as dimensões metafísicas.

A “cosmopolítica” tem sido um termo usado por lideranças indígenas, antropólogos/as, artistas e pensadores/as, que entrelaçam a ação política com questões ambientais, subjetivas e espirituais. Nesta perspectiva, a figura do/a “xamã” torna-se emblemática daquele/a que é capaz de transitar por diferentes níveis de realidade e modos de percepção, operando como uma espécie de “diplomata” dentro de uma cosmologia, segundo a compreensão do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Responsável pelas boas conexões entre o mundo terreno e o invisível, a função xamânica congrega dimensões religiosas, políticas e medicinais com evidentes afinidades com as linguagens artísticas.

Tais termos trazem outras perspectivas de abordagem das artes performativas, reavivando marcas da nossa própria história, inclusive no Ocidente: a profunda conexão do teatro e da dança com o universo dos ritos e com uma espiritualidade encarnada. Neste sentido, experiências artísticas contemporâneas podem estabelecer contrapontos críticos também com visões fundamentalistas da religião, que hoje apoiam forças reacionárias e destrutivas atuantes no corpo social.

Este Dossiê convida, assim, pesquisadores/as e artistas empenhados na investigação dos desdobramentos de tais questões, pelos mais variados ângulos, seja numa perspectiva crítica das relações entre arte e espiritualidade, seja na proposição de uma visão renovada a partir de cosmovisões e práticas tradicionais, reinventadas pelas artes, explorando seus aspectos estéticos, éticos, políticos, existenciais e espirituais.

Prazo para a submissão de trabalhos
Desde de 2020, a revista Conceição/Conception adota o sistema de publicação contínua. Assim, não há fascículos, nem periodicidade. Os artigos serão publicados conforme forem aprovados pelo processo de avaliação por pares e passarem por processos de revisão e diagramação.
O texto de apresentação e o editorial serão publicados junto com o último conjunto de artigos do volume, em dezembro.

Assim, a presente chamada estende-se até 30 de Setembro de 2022. 

Além de artigos temáticos, o periódico recebe, em outras seções, textos com temáticas livres, entrevistas, traduções e resenhas.

Website: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/conce