Reconfigurações ético-reparadoras do literário hoje

Autores

DOI:

https://doi.org/10.20396/remate.v41i1.8658823

Palavras-chave:

Literatura, Intransitividade, Virada ética

Resumo

O presente ensaio propõe-se a debater indícios de uma função ético-reparadora para a literatura e os estudos literários hoje. Para tanto, divide-se em dois momentos fundamentais, dois canais argumentativos que, sem um intuito totalizante, apontam as linhas gerais de um cenário em mutação. De um lado, a literatura do século XX é apresentada a partir da imagem de uma suposta negatividade ou intransitividade radical, capaz de “desobrar a obra” em sua “estética da supressão”. De outro lado, a partir de um debate introdutório em torno de alguns dos lugares de transitividade vislumbrados para a literatura neste início de século XXI, o literário é concebido agora como campo ético-reparador, responsável, entre outros, por “dar visibilidade”, “lembrar”, “reparar danos”, “confortar” etc. Resulta dessa transição a noção de um crescente desconforto em relação aos artefatos sociais que, inclusive no campo artístico, não se reconciliam com um utilitarismo que nada pode deixar intacto, nem mesmo a literatura.

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Biografia do Autor

André Cechinel, Universidade do Extremo Sul Catarinense

Professor do Programa de Pós-Graduação em Educação e do Curso de Letras da Universidade do Extremo Sul Catarinense.

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Publicado

2021-06-23

Como Citar

CECHINEL, A. Reconfigurações ético-reparadoras do literário hoje. Remate de Males, Campinas, SP, v. 41, n. 1, p. 76–97, 2021. DOI: 10.20396/remate.v41i1.8658823. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8658823. Acesso em: 22 out. 2021.