Dossiê: Mecanismos digitais e semióticos dos populismos contemporâneos

2019-12-18

Estudos da linguagem e da sociedade vêm apontando que a vida social e os cenários sociolinguísticos atuais têm sido amplamente afetados pela digitalização. As tecnologias da comunicação digitais são muito mais do que “facilitadoras da interatividade e mobilidade das pessoas”; elas alteram, segundo Jacquemet (2019), “a natureza mesma dessa interatividade, transformando o sentido de lugar, pertencimento e relações sociais” (p. 153). Pesquisas sobre formas emergentes de populismo no mundo vêm indicando que campanhas eleitorais e governos atuais têm reciclado regularidades de interação no meio digital (p. ex., a possibilidade de interagir imediatamente com um influenciador digital) e combinando-as com padrões neoliberais (p. ex., a desregulamentação da seguridade social e do trabalho), de forma a redefinir a política, o estado de bem-estar social e as próprias instituições democráticas. No Brasil, ataques às instituições do estado de direito, à ciência, ao meio ambiente e a outros recursos da democracia são sistemáticos. A regularidade com que as ações ocorrem em redes digitais de WhatsApp e outras mídias digitais e a resultante popularidade do mecanismo populista de Jair Bolsonaro, segundo Leticia Cesarino (2018), são resultado de uma ‘ciência do populismo’, isto é, um processo cuidadosamente planejado de produzir digitalmente a figura do “povo”, em oposição ao “inimigo” (ver Laclau, 2005 e Mouffe, 2019).

O populismo digital brasileiro não é único. Dada a similaridade da ciência do populismo com o que Ico Maly (2018) chama de “populismo algorítmico” e com a reconfiguração da “mensagem” (Silverstein, 2017), da “mídia” e da “verdade” (Blommaert, 2019) no mundo contemporâneo, Trabalhos em Linguística Aplicada convida a submissão de artigos que criem inteligibilidades sobre as transformações digitais e semióticas na política atual. Textos que não abordem digitalização, mas enderecem temas cruciais da política hoje, como direitos humanos e ataques ao meio ambiente, são bem-vindos. A revista sugere artigos que respondam de forma consistente e rigorosa às transformações da interação, da verdade, do campo sociolinguístico e da democracia no mundo contemporâneo. Trabalhos em Linguística Aplicada é uma revista open access e revisada por pares. No Brasil, ocupa o estrato A-1 da Capes. Globalmente, é hospedada na coleção Scielo (Scientific Electronic Library Online) e indexada em: Linguistics and Language Behaviour Abstracts Database; MLA Directory of Periodicals; CSA-Sociological Abstracts e ULRICHS'S International Periodicals Directory.

Artigos inéditos, entre 4.000 e 6.000 palavras, devem ser submetidos, até o dia 20/2/2020, em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/tla/about/submissions

Daniel N. Silva (Guest Editor/organizador)

 

References/Referências Blommaert, J. (2019) Ergoic framing in New Right online groups: Q, the MAGA kid, and the Deep State theory. CTRL+Alt+Dem. Disponível em: https://alternative-democracy-research .org/2019/04/17/ergoic-framing-in-new-right-online-groups-q-the-maga-kid-and-the-deep-state-theory/?fbclid=IwAR26immcSB_fbQW7QAeAV1xhLX_vRftlr8fMeL4JpRo1IKUXh7dPHioyQZ8

Cesarino, Leticia (2018) On Digital Populism in Brazil. PoLAR: Political and Legal Anthropology Review. Disponível em: https://polarjournal.org/2019/04/15/on-jair-bolsonaros-digital-populism/

Jacquemet, Marco (2019) The Digitalization of the Asylum Process (and the Digitizing of Evidence). In: Hass, Bridget & Amy Shuman (Eds.) Technologies of Suspicion and the Ethics of Obligation in Political Asylum. Athens: Ohio University Press.

Laclau, E. (2005). On populist reason. Londres: Verso.

Maly, Ico (2018) Algorithmic populism and algorithmic activism. Diggit Magazine. Disponível em: https://www.diggitmagazine.com/articles/algorithmic-populism-activism

Mouffe, C. (2018) For a left populism. Londres: Verso.

Silverstein, M. (2017) Trump L’oeuil. Diggit Magazine. Disponível em: https://www. diggitmagazine.com/articles/trump-l-oeuil