Letramentos literários na contemporaneidade: criticidade e subversão

2021-03-26

Letramentos literários na contemporaneidade: criticidade e subversão

 

Profa. Dra. Cynthia Agra de Brito Neves (UNICAMP)

Prof. Dr. Clecio Bunzen (UFPE)

 

Letramentos literários são aqui compreendidos como práticas sociais que envolvem leitura e/ou escrita literárias. Se antes o termo era comumente usado, no singular, para se referir a teorias e práticas didático-pedagógicas de ensino de literatura na educação básica, atualmente, os letramentos literários, no plural, atravessam os muros escolares e o conceito se amplia para incorporar eventos e práticas de leitura e escrita (Street, 2014) literárias onipresentes na sociedade contemporânea. Uma rápida pesquisa na web logo revela a produção, circulação e recepção de minicontos (microcontos ou nanocontos), fanfictions (fanfics), relatos narrados como crônicas, instapoesias, poesias-slams, poesias-gifs, enfim, textos literários diversos, em prosa ou em versos, ora escritos, ora falados em voz alta e apresentados performaticamente (Zumthor, 2007), alvos de muitas curtidas nas redes sociais. E os jovens são a grande maioria do público leitor e produtor desses (novos?) gêneros, muito provavelmente porque é por meio desses textos que assumem a vez e a voz da criticidade e da subversão. Em outros contextos, bibliotecas comunitárias em zonas de alta vulnerabilidade social no Brasil revelam diferentes eventos e práticas de leitura e escrita de textos literários, com forte potencial de recepção entre crianças e jovens (Fernandez, Machado e Rosa, 2018). A nosso ver, compreender os letramentos literários e a educação literária pela lente das práticas de letramentos (Street, 2014) torna-se essencial para (re)pensarmos os modos de produção, circulação e recepção da literatura como resistência e subversão culturais nos processos complexos de formação de leitores e escritores literários.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018), por exemplo, recomenda tais práticas contemporâneas de letramentos literários na tentativa de escolarizá-las (é possível?). Nessa direção, propostas curriculares, materiais didáticos diversos e exames seletivos para ingresso em universidades procuram seguir a prescrição do documento nacional, às vezes se reinventando, outras vezes não. Como reagem os jovens estudantes leitores e escritores de literatura? Como os professores atendem a essa nova demanda? Como esses gêneros literários têm sido didatizados? O que sugerem as políticas públicas e os editais para compra e distribuição das obras literárias? Que sequências didáticas (SDs) envolvendo letramentos literários podem dar vez e voz a esses jovens estudantes da educação básica? Que projetos escolares ou não escolares englobam os letramentos literários nas comunidades, em contextos locais e situados? Em que sentido é possível afirmar que esses letramentos literários são também letramentos críticos, transgressivos, subversivos? E por que se aproximam de uma educação libertadora e de(s)colonial?

Interessa-nos, neste dossiê, reunir artigos que tratem de letramentos literários, articulando-os aos novos letramentos e multiletramentos, sob a perspectiva teórica de uma Linguística Aplicada indisciplinar (Moita Lopes, 2006) e crítica (Monte Mór, 2019), que deseja uma educação libertadora e transgressora (bell hooks, 2017) e de(s)colonial (Walsh, 2009, Lugones, 2014). Além disso, investigações no campo dos Estudos dos Letramentos, em diálogo com a perspectiva da Educação Literária, também serão aceitas, especialmente aquelas que lancem reflexões críticas para as práticas de leitura e escrita literárias que ocorrem em diferentes espaços educativos formais, informais ou não formal (Gohn, 2006).

 

Referências:

 BRASIL. Ministério da Educação. Base nacional curricular comum: educação é a base. Brasília: MEC, 2018.

FERNANDEZ, C.; MACHADO, E; ROSA, E. O Brasil que lê: bibliotecas comunitárias e resistência cultural na formação de leitores. Olinda: CCLF; Brasil: RNBC, 2018. E-book.  

GOHN, M. da G. Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas. Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.14, n.50, p. 27-38, jan./mar. 2006.  

hooks, b. Ensinando a transgredir: a educação como prática da Liberdade. Trad. Marcelo B. Cipolla. 2ª. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017.

LUGONES, M. Rumo a um feminismo descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, 22(3): 320, setembro-dezembro/2014. (Artigo originalmente publicado na revista Hypatia, v. 25, n. 4, 2010. Traduzido com o consentimento da autora).

MOITA LOPES, L. P. da (Org.). Por uma linguística aplicada indisciplinar. São Paulo: Parábola, 2006.

MONTE MÓR, W. Letramentos críticos e expansão de perspectivas: diálogo sobre práticas. In: JORDÃO, C. M.; MARTINEZ, J. Z.; MONTE MÓR, W. (Orgs.). Letramentos em prática na formação inicial de professores de inglês. Campinas, SP: Pontes Editores, 2019.

STREET, B. Letramentos Sociais: abordagens críticas do letramento no desenvolvimento, na etnografia e na educação. Trad. Marcos Bagno. 1ª. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2014.

WALSH, C. Interculturalidad, Estado, sociedad: luchas (de)coloniales de nuestra época. Quito: UASB/Abya-Yala, 2009.

ZUMTHOR, P. Performance, recepção, leitura. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. São Paulo: Cosac Naify, 2007. 

 

Convite

Convidamos os interessados nesta proposta para enviar seu resumo para os e-mails cynneves@unicamp.br e clecio.bunzen@ufpe.br, respeitando o seguinte calendário de prazos:

Resumos (de 300 a 500 palavras, sem contar as referências): 20/04/21.

Aceite de resumos: 30/04/2021.

Artigos completos (submetidos à revista seguindo as respectivas normas): 15/07/2021. Serão aceitos textos em português, inglês, francês e espanhol.

Pareceres enviados para autores: 15/09/2021.

Submissão final: 15/10/2021.

Publicação do Dossiê: Dezembro / 2021.