Guetorização e globalização: um desafio para a educação matemática

Autores

  • Ole Skovsmose Universidade de Aalborg

DOI:

https://doi.org/10.20396/zet.v13i24.8646990

Palavras-chave:

Educação matemática crítica. Globalização. Aporismo. Incerteza.

Resumo

Acredito que a discussão sobre a educação matemática pode ser relacionada com a discussão sobre a globalização e, portanto, também com a da guetorização, já que julgo ser esta um aspecto da globalização. Conhecimento e desenvolvimento de conhecimento podem ser vistos como coisas às quais se atribui valor. Isto é certamente proposto pela teoria do valor relativo ao conhecimento de Daniel Bell. Entrentanto, a valorização do conhecimento tem raízes profundas no movimento do Iluminismo - aqui concebido de forma ampla -, que se caracteriza pela idéia de que o progresso sociopolítico pode ser assegurado pelo progresso do conhecimento — e do conhecimento científico, em particular. Este pressuposto do Iluminismo é questionável, e agora com boas evidências, já que o conhecimento científico, incluindo o conhecimento matemático, é capaz de “maravilhas”, bem como de “horrores”. Isto nos leva a uma situação aporética com respeito ao conhecimento. Devemos abandonar a idéia de que qualquer avanço cego do conhecimento (científico) constitui um motor para o “progresso”. Como conseqüência, não podemos construir uma educação matemática com base no pressuposto simplista de que isso implicará o bem final para aqueles nela envolvidos. Dessa forma, o papel efetivo a ser desempenhado pela educação matemática dependerá dos contextos nos quais ela estará se desenvolvendo. Considero crítico o papel sociopolítico desempenhado pela educação matemática. Com isso, quero dizer, primeiro, que, o que a educação matemática está fazendo é algo que merece atenção e consideração. A educação matemática pode produzir diferenças para certos grupos de pessoas. Por intermédio da matemática, é possível estratificar e propiciar diferentes oportunidades de vida a diferentes grupos de pessoas. A educação matemática constitui um elemento indispensável para o desenvolvimento sociotecnológico. Em segundo lugar, acredito que a educação matemática é crítica, no sentido de que ela não tem uma característica essencialista que possa garantir que o seu efetivo papel sociopolítico cumpra certas funções atrativas, tais como as estipuladas nos objetivos comuns dos currículos. A educação matemática poderia servir para o desenvolvimento adicional de uma preocupação com a democracia, tentando promover, desse modo, a inclusão social. Ela poderia, entretanto, provocar a exclusão social. Isto me leva a considerar a importância da educação matemática crítica.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Ole Skovsmose, Universidade de Aalborg

Professor do Departamento de Educação e Aprendizado da Universidade de Aalborg – Dinamarca.

Referências

ALRO, H.; SKOVSMOSE, O. Dialogue and Learning in Mathematics Education: Intention, Reflection, Critique. Dordrecht, Boston, London: Kluwer Academic Publishers, 2002.

BAUMAN, Z. Globalization: The Human Consequences. Cambridge: Polity Press, 1998.

BAUMAN, Z. Community: Seeking Safety in an Insecure World. Cambridge: Polity Press, 2001.

BELL, D. The Social Framework of the Information Society. In: FORRESTER, T. (ed.). The Microelectronics Revolution (500-549). Oxford: Blackwell, 1980.

BISHOP, A. J. Western Mathematics: The Secret Weapon of Cultural Imperialism. Race and Class 32(2), 51-65, 1990.

BORBA, M.; Skovsmose, O. The Ideology of Certainty in Mathematics Education. For the Learning of Mathematics, 17(3), 17-23, 1997.

BOURDIEU, P. The State Nobility: Elite Schools in the Field of Power. With the collaboration of Monique de Saint Martin. Cambridge: Polity Press, 1996.

BURY, J. B. The Idea of Progress: An Inquiry into its Origin and Growth. With and Introduction by Charles A. Bead. New York: Dover Publications. (First published 1932), 1955.

CASTELLS, M. The Information Age: Economy, Society and Culture. Volume I: The Rise of the Network Society. Oxford: Blackwell Publishers, 1996.

CASTELLS, M. The Information Age: Economy, Society and Culture. Volume II, The Power of Identity. Oxford: Blackwell Publishers, 1997.

CASTELLS, M. The Information Age: Economy, Society and Culture. Volume III, End of Millennium. Oxford: Blackwell Publishers, 1998.

CASTELLS, M. Flows, Networks, and Identities: A Critical Theory of the Informational Society. In: CASTELLS, M.; FLECHA, R.; FREIRE, P., GIROUX, H.; MACEDO, D.; WILIS, P. Critical Education in the New Information Age (37-64). Lanham, Maryland: Rowman and Littlefield, 1999.

D’AMBROSIO, U. Cultural Framing of Mathematics Teaching and Learning. In: BIEHLER, R.; SCHOLZ, R. W.; STRÄSSER, R.; WINKELMANN, B. (eds.). Didactics of Mathematics as a Scientific Discipline (443-455). Dordrecht, Boston, London: Kluwer Academic Publishers, 1994.

D’AMBROSIO, U. Educação matemática: Da teoria à prática. 4.ed. Campinas: Papirus, 1998.

D’AMBROSIO, U. Etnomatemática: Elo entre tradições e a modernidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2001.

DORLING, D.; SIMPSON, S. (eds.). Statistics in Society: The Arithmetic of Politics. London: Arnold. 2001 (1999).

FITZSIMON, G. E. What Counts as Mathematics? Technologies of Power in Adult and Vocational Education. Dordrecht, Boston, London: Kluwer Academic Publishers, 2002.

HORKHEIMER, M.; ADORNO. T. W. Dialectic of Enlightenment. Translated by John Cumming. New York: Continuum. (First published 1947), 2002.

LINS, A. F. Towards an Anti-Essentialist View of Technology in Mathematics Education: The Case of Excel and Cabri-Géométre. Unpublished Doctoral Thesis. Bristol: Faculty of Social Sciences, Graduate School of Education, University of Bristol, 2002.

NISBET, R. A. History of the Idea of Progress. New York: Basic Books, 1980.

PENTEADO, M. G.; SKOVSMOSE, O. Risks Include Possibilities. Copenhagen, Roskilde, Aalborg: Centre for Research in Learning Mathematics, Danish University of Education, Roskilde University Centre and Aalborg University, 2002.

PORTER, T. M. Trust in Numbers: The Pursuit of Objectivity in Science and Public Life. Princeton: Princeton University Press, 1995.

SKOVSMOSE, O. Towards a Philosophy of Critical Mathematical Education. Dordrecht, Boston, London: Kluwer Academic Publishers, 1994.

SKOVSMOSE, O. Aporism: Uncertainty about Mathematics. Zentralblatt für Didaktik der Mathematik, 98(3), 88-94, 1998a.

SKOVSMOSE, O. Linking Mathematics Education and Democracy: Citizenship, Mathematics Archaeology, Mathemacy and Deliberative Interaction. Zentralblatt für Didaktik der Mathematik, 98(6), 195-203, 1998b.

SKOVSMOSE, O. Hacia una Filosofía de la Educación Matemática Crítica. Bogotá: Una Empresa Docente, Universidad de los Andes. (Translated into Spanish by Paola Valero from Skovsmose, 1994), 1999.

SKOVSMOSE, O. Aporism and Critical Mathematics Education. For the Learning of Mathematics, 20(1), 2-8, 2000a.

SKOVSMOSE, O. Cenários para investigação. Bolema (14), Universidade de São Paulo, Rio Claro, 66-91, 2000b.

SKOVSMOSE, O. Educacão Matemática Crítica: A Questão da Democracia. Campinas: Papirus, 2001.

SKOVSMOSE, O. Matemática em Ação. In: BICUDO, M. A. V.; BORBA, M. C. (eds.). Educação Matemática: Pesquisa em Movimento (30-57). São Paulo: Cortez Editora, 2004.

SKOVSMOSE, O. Travelling Through Education: Uncertainty, Mathematics, Responsibility. Rotterdam: Sense Publishers, 2005.

SKOVSMOSE, O.; VALERO, P. Breaking Political Neutrality: The Critical Engagement of Mathematics Education with Democracy. In: ATWEH, B., FORGASZ, H.; NEBRES, B. (eds.). Sociocultural Research on Mathematics Education, (37-55). Mahwah (New Jersey), London: Lawrence Erlbaum Associates, 2001.

SKOVSMOSE, O.; VALERO, P. Mathematics Education in a World Apart – Where We Are All Together. In: VALERO, P.; SKOVSMOSE, O. (eds.). Proceedings of the Third International Mathematics Education and Society Conference (1-9). Centre for Research in Learning Mathematics. Copenhagen, Roskilde, Aalborg: Danish University of Education, Roskilde University Centre, Aalborg University, 2002a.

SKOVSMOSE, O.; VALERO, P. Democratic Access to Powerful Mathematical Ideas. In: ENGLISH, L. (Ed.). Handbook of International Research in Mathematics Education. Mahwah, New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates, 2002b, p. 383- 407.

VALERO, P. Deliberative Mathematics Education for Social Democratization in Latin America. Zentralblatt für Didaktik der Mathematik, 98(6), 1998.

VALERO, P. Reform, Democracy and Mathematics Education: Towards a Sociopolitical Frame for Understanding Change in the Organization of Secondary School Mathematics. Ph.D. dissertation. Copenhagen: Danish University of Education, 2002.

VALERO, P.; SKOVSMOSE, O. (eds.). Proceedings of the Third International Mathematics Education and Society Conference. Centre for Research in Learning Mathematics, Danish University of Education, Roskilde University and Aalborg University, 2002.

VITHAL, R. In Search of a Pedagogy of Conflict and Dialogue for Mathematics Education. Doctoral Dissertation. Aalborg: Aalborg University, 2000.

Downloads

Publicado

2009-02-16

Como Citar

SKOVSMOSE, O. Guetorização e globalização: um desafio para a educação matemática. Zetetike, Campinas, SP, v. 13, n. 2, p. 113–142, 2009. DOI: 10.20396/zet.v13i24.8646990. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/zetetike/article/view/8646990. Acesso em: 29 nov. 2022.

Edição

Seção

Artigo