O sorteio na política: como os minipúblicos vêm transformando a democracia

Autores

Palavras-chave:

Sorteio. Minipúblico. Democracia deliberativa. Participação social. Representação política.

Resumo

Este artigo analisa o uso do sorteio na política sob uma perspectiva genealógica e contemporânea. Ele reflete em torno desse mecanismo, pouco conhecido na América Latina, que seleciona cidadãos aleatoriamente para tomar decisões. O artigo expõe como essa ideia surgiu na Grécia antiga, depois foi utilizada na Itália renascentista, até ser rejeitada pelas repúblicas modernas. Ele mostra o resgate do sorteio nos anos 1970, em meio aos debates sobre a crise da representação e à ascensão da democracia deliberativa, trazendo como novidade o uso da amostra representativa, tal como ocorre nos júris de cidadãos, nas células de planificação e nas pesquisas deliberativas. O artigo revela a dinâmica em torno desses minipúblicos e o campo de experimentação que se abriu a partir deles. Analisam-se as críticas que esses mecanismos vêm recebendo, em especial o ceticismo com relação ao saber-cidadão e o fato de eles impossibilitarem a participação espontânea da sociedade. São apresentados exemplos recentes, como o orçamento participativo berlinense e a emenda constitucional irlandesa, que fornecem uma base empírica não somente para se contrapor a esses argumentos, mas para mostrar que o sorteio vem se tornando uma alternativa viável na política.

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Biografia do Autor

André Rubião, Faculdade Milton Campos

Faculdade de Direito Milton Campos - Núcleo de Estudos sobre Gestão de Políticas Públicas (Negesp), Nova Lima (MG), Brasil; IBS/FGV, Belo Horizonte (MG), Brasil.

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Publicado

2018-12-17

Como Citar

RUBIÃO, A. O sorteio na política: como os minipúblicos vêm transformando a democracia. Opinião Pública, Campinas, SP, v. 24, n. 3, p. 699–723, 2018. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/op/article/view/8654301. Acesso em: 27 nov. 2021.

Edição

Seção

Artigos