Desenvolvimento e desequilíbrio industrial no Rio Grande do Sul: uma análise secular evolucionária

Autores

  • Marcelo Arend Universidade Federal de Santa Maria
  • Silvio Antonio Ferraz Cario Universidade Federal de Santa Catarina

Palavras-chave:

Desenvolvimento industrial. Industrialização. Desenvolvimento econômico. Rio Grande do Sul. Desequilíbrios regionais

Resumo

O presente artigo aplica as abordagens institucionalista e neoschumpeteriana para compreender a dinâmica de desenvolvimento industrial e a consequente evolução do desequilíbrio econômico do Rio Grande do Sul. A hipótese é que se originaram dois path dependencies, um dinâmico e outro não, determinados, amplamente, por fatores tecnológicos e pelas matrizes institucionais das duas “metades”. Elementos, de larga duração, presentes no percurso original, como direitos de propriedade, aprendizagem, estrutura social, ideologia, hábitos, políticas públicas e inovações, produziram estruturas industriais locais e particulares, capazes de explicar a trajetória de desenvolvimento industrial e o desequilíbrio regional contemporâneo deste estado. A análise evolucionária mostra dois períodos cruciais para o entendimento do desenvolvimento industrial gaúcho: o começo da Primeira República e o início da segunda metade do século XX. Nesses dois momentos, a economia gaúcha encontrava-se em crise, vindo logo em seguida a reestruturar-se. A região responsável pela mudança tecno-produtiva, nos dois períodos, foi a Metade Norte, consolidando-se como matriz industrial dinâmica do Estado do Rio Grande do Sul.

Abstract

This present paper applies both the institutionalistic and neo-Schumpeterian approaches in order to understand the dynamics of industrial development and the consequent evolution of the economic unbalance of the State of Rio Grande do Sul. The hypothesis is that two path dependencies were originated, one was dynamic and the other was not. Such path dependencies were determined widely by technological factors and by the institutional matrix of the two “halves”. Present in the original path, elements of long duration such as ownership rights, learning, social structure, ideology, habits, public policies and inovations, all produced local private industries, which explain the course of industrial development and the regional stability of this State. The evolutionary analysis shows two crucial periods for the understanding of the industrial development of Rio Grande do Sul: the beginning of the Old Republic and the beginning of the second half of the 20th Century. In both those moments, Rio Grande do Sul’s economy was going through a crisis, but soon afterward it was restructured. The Northern Half was the region responsible for the technoproductive change in both periods, thus consolidating itself as the dynamic industrial matrix.

Key words: Industrial development. Industrialization. Economic development. Rio Grande do Sul. Regional inequality

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Biografia do Autor

Marcelo Arend, Universidade Federal de Santa Maria

Doutor em Economia (UFRGS, 2009), Mestre em Economia (UFSC, 2004) e Bacharel em Ciências Econômicas (UFSM, 2002). Professor Adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no Departamento de Economia e Relações Internacionais. Professor do Programa de Pós-graduação em Economia (UFSC), onde também exerce o cargo de Sub-coordenador. Atua nas áreas de Economia Brasileira, Economia Política e Desenvolvimento Econômico, com ênfase nas discussões em Desenvolvimento Industrial e Mudança Tecnológica e Institucional. No período 2012/2013 foi Pesquisador Visitante do IPEA.

Silvio Antonio Ferraz Cario, Universidade Federal de Santa Catarina

Possui graduação em Ciências Econômicas pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1975), mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina (1991), mestrado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1979) e doutorado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas (1997). Atualmente é professor associado II da Universidade Federal de Santa Catarina. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Organização Industrial, Estudos Industriais e Economia da Inovação, atuando principalmente nos seguintes temas: capacitação tecnológica, organização da produção, estruturas industriais e competitividade. Atualmente participa do Grupo de Pesquisa: Propriedade Intelectual, Transferência de Tecnologia e Inovação na UFSC.

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Publicado

2016-01-06

Como Citar

AREND, M.; CARIO, S. A. F. Desenvolvimento e desequilíbrio industrial no Rio Grande do Sul: uma análise secular evolucionária. Economia e Sociedade, Campinas, SP, v. 19, n. 2, p. 381–420, 2016. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/ecos/article/view/8642723. Acesso em: 18 maio. 2022.

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