Causalidade circular e causação mental

uma saída para a oposição internalismo versus externalismo?

Autores

  • Willem Ferdinand Gerardus Haselager University of Nijmegen
  • Maria E. Q. Gonzalez UNESP

Palavras-chave:

Fisicalismo, externalismo e internalismo, epifenomenalismo, Kim, causação mental

Resumo

O debate internalismo versus externalismo é frequentemente construído na forma de uma oposição direta entre conteúdo mental e causação mental. Tal oposição reforça uma tendência a se tomar partido no debate. Alguns sustentam que o fisicalismo falhou, uma vez que não existe uma explicação sobre o papel do conteúdo mental externo na causação interna do comportamento. Outros (notavelmente Jaegwon Kim) tomam o partido do fisicalismo e argumentam que ele não deixa lugar para um papel causal do conteúdo mental (ou para a mente em geral). Defendemos aqui a hipótese de que o debate internalismo versus externalismo não necessita de um vencedor e propomos a dissolução de tal oposição. Indicaremos uma saída para essa disputa focalizando a suposição fisicalista segundo a qual o conteúdo mental não pode desempenhar um papel causal genuíno na produção do comportamento. De acordo com Kim, o fisicalismo nos coloca diante de um dilema: o mental pode ser reduzido ao físico ou, alternativamente, o mental não pode ser reduzido ao físico. No primeiro caso, o conteúdo mental torna-se um mero epifenômeno. No segundo, a irredutibilidade do mental deixa inexplicado, e, portanto misterioso, o seu poder causal. Diferentemente de Kim, procuraremos escapar do dilema sugerido, ao mesmo tempo em que preservaremos o fisicalismo. Procuraremos mostrar que o dilema “epifenomenalize ou mistifique” é falso, uma vez que ele pressupõe uma concepção de explicação e de redução que, embora seja predominante na ciência cognitiva, não leva em consideração a natureza dinâmica da cognição. Uma análise cuidadosa da estratégia explanatória cognitivista – i.e redução via análise funcional (decomposição e localização) – revela que ela é válida apenas para sistemas nos quais a interação entre os seus componentes internos é mínima. Tal análise coincide com a visão cognitivista da mente entendida como um sistema composto por representações mentais. Sustentaremos que a mente é um sistema incorporado e situado, cuja natureza dinâmica não pode ser explicada pela estratégia cognitivista tradicional. Como ocorre frequentemente com os sistemas dinâmicos, a causalidade circular se faz presente, o que significa dizer que variáveis de ordem superior, no plano macroscópico, restringem o comportamento dos componentes de ordem inferior, no plano microscópico. Esta noção de causalidade circular indica a importância de variáveis no plano macroscópico para os processos que operam no plano microscópico. Forneceremos exemplos de aplicação da causalidade circular na cognição para ilustrar a inadequação das estratégias explanatórias reducionistas tradicionais. Concluiremos, então, que o dilema proposto por Kim pressupõe um modelo de explicação reducionista que é inapropriado para abordar os aspectos dinâmicos da cognição. Mais especificamente, argumentaremos que o fisicalismo não conduz ao epifenomenalismo nem ao mistério. De modo geral, sustentamos que uma compreensão apropriada da natureza dinâmica da cognição pode fornecer uma saída para a oposição perene entre externalismo e internalismo.

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Biografia do Autor

Willem Ferdinand Gerardus Haselager, University of Nijmegen

Ph.D  from the Free University  of Amsterdam. Professor at the University of Nijmegen.

Maria E. Q. Gonzalez, UNESP

Departamento de Filosofia, UNESP, MARÍLIA, SP BRAZIL

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Publicado

2002-03-31

Como Citar

HASELAGER, W. F. G.; GONZALEZ, M. E. Q. Causalidade circular e causação mental: uma saída para a oposição internalismo versus externalismo?. Manuscrito: Revista Internacional de Filosofia, Campinas, SP, v. 25, n. 3, p. 217–238, 2002. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/manuscrito/article/view/8644654. Acesso em: 3 fev. 2023.

Edição

Seção

Artigos