Autonomia, paternalismo e dominação na formação das preferências

Autores

  • Luis Felipe Miguel Universidade de Brasília

Palavras-chave:

Preferências. Paternalismo. Dominação. Liberalismo. Autonomia

Resumo

A questão da formação das preferências é ignorada pela maior parte da ciência política. A política seria um espaço apenas de agregação de preferências prévias. A justificativa do pensamento liberal para recusar a crítica da produção das preferências é a ideia de que cada um é o melhor juiz das próprias preferências. Caso não aceitemos isso, estamos caindo no paternalismo, em que a autonomia do agente é ameaçada pela ideia de que um observador externo estará em condições de identificar suas "verdadeiras" preferências mesmo contra sua vontade expressa. Meu argumento aqui é de que a posição antipaternalista está correta, em princípio, mas desloca a discussão. O principal obstáculo à formação autônoma de preferências não é o paternalismo, mas a dominação. Indivíduos e grupos têm dificuldade de formular e expressar autonomamente suas preferências quando estão sujeitos a relações de dominação.

Abstract
Formation of preferences is a question largely ignored by political science. Politics is seen just as a space to aggregate prior preferences. Liberalism justifies the refusal of a critique of preferences production by the idea that each person is the best judge of their own preferences. If we do not accept this, we are falling into paternalism, in which the autonomy of the agent is threatened by the idea that an outside observer will be able to identify their "true" preferences even against her expressed will. My argument here is that the anti-paternalistic position is correct in principle but shifts the discussion. The main obstacle to autonomous preference formation is not paternalism, but domination. Individuals and groups have difficulties to formulate and express their autonomous preferences when they are subject to relations of domination.

 Keywords: Preferences. Paternalism. Domination. Liberalism. Autonomy

 

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Biografia do Autor

Luis Felipe Miguel, Universidade de Brasília

Luis Felipe Miguel (Rio de Janeiro, 1967) é doutor em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professor titular do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê) e edita a Revista Brasileira de Ciência Política.

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Publicado

2015-12-11

Como Citar

Miguel, L. F. (2015). Autonomia, paternalismo e dominação na formação das preferências. Opinião Pública, 21(3), 601–625. Recuperado de https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/op/article/view/8642209

Edição

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Artigos