Os protestos no Brasil em tempos de crise (2011-2016)

Autores

Palavras-chave:

Protestos, Crise, Governos petistas

Resumo

Este artigo se propõe a analisar as características dos protestos no Brasil entre 2011 e 2016, um contexto socioeconômico e político marcado pelas contradições e pelo ocaso dos governos petistas. A análise está baseada em um banco de dados de protesto constituído a partir do jornal Folha de S. Paulo. Sustentamos que os protestos antecedem a eclosão da crise econômica e que, quando atingem o pico, em 2013, produzem mudanças no contexto político, abrindo oportunidades políticas inéditas para que um conjunto heterogêneo de atores, à direita e à esquerda do PT, manifestasse suas divergências em relação ao governo. Os protestos evidenciam os limites da política de conciliação de classes dos governos petistas e conformam um cenário de instabilidade que contribui para o impeachment de Rousseff, de modo que não há uma descontinuidade entre 2013 e 2015-2016. O padrão de protesto verificado nesse período caracteriza-se pela combinação de duas dinâmicas distintas: polarização política e heterogeneização de atores e reivindicações.

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Biografia do Autor

Luciana Ferreira Tatagiba, Universidade Estadual de Campinas

Professora Livre-Docente do Departamento de Ciência Política e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política, da Unicamp.

Andreia Galvão, Universidade Estadual de Campinas

Graduada em Ciências Sociais pela Unicamp, com mestrado em Ciência Política (1996) e doutorado em Ciências Sociais (2003), defendidos na mesma instituição, sou professora do Departamento de Ciência Política da Unicamp.

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Publicado

2019-08-26

Como Citar

Tatagiba, L. F. ., & Galvão, A. . (2019). Os protestos no Brasil em tempos de crise (2011-2016). Opinião Pública, 25(1), 63–96. Recuperado de https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/op/article/view/8656284

Edição

Seção

Artigos