Fazer emergir o masculino

noções de “terapia” e patologização na hormonização de homens trans

Palavras-chave: Homens trans, Testosterona, Doença mental, Identidade, Antropologia da saúde.

Resumo

Descreve-se as noções de "terapia" hormonal em cenários medicalizantes nos quais homens transexuais se movem na constituição de transições de gênero. Em meio aos acessos e práticas à (auto)administração de ésteres de testosterona (cipionato e/ou propionato), esses sujeitos acionam a ideia de "terapia" - seja para se afastar ou para reiterá-la -, levando-nos a uma reflexão sobre a atual classificação da transexualidade como doença mental. Realizou-se pesquisa etnográfica em grupos de ativismo trans no Brasil com entrevistas em profundidade no período de 2014 a 2015.

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Biografia do Autor

Rozeli Maria Porto, Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Professora Associada I do Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 

Francisco Cleiton Vieira Silva do Rego, Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Pesquisador do grupo Gênero, Corpo e Sexualidade (GCS/UFRN).

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Publicado
2019-08-28
Como Citar
Porto, R. M., & Rego, F. C. V. S. do. (2019). Fazer emergir o masculino. Cadernos Pagu, (55), e195516. Recuperado de https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/8656397