O aporte das fontes inquisitoriais para uma história da difusão social da leitura e da escrita no Brasil colonial

Autores

  • Tânia Lobo Universidade Federal da Bahia
  • Ana Sartori Universidade Federal da Bahia
  • Rodrigo Mota Soares Estudante e bolsista de Iniciação Científica, Universidade Federal da Bahia

DOI:

https://doi.org/10.20396/cel.v58i2.8647155

Palavras-chave:

Inquisição no Brasil. Distribuição social da leitura e da escrita. História social do português brasileiro

Resumo

O Brasil é um país de escolarização em massa e imprensa tardias. Paradoxalmente, é através dos espaços institucionais formais, sobretudo a escola, que se tem buscado traçar a história da distribuição social da leitura e da escrita na sociedade brasileira, não necessariamente, contudo, tomando tal questão como foco – em uma abordagem global, de caráter sociológico e demográfico –, mas apenas dando pistas para a sua compreensão, através, por exemplo, da história das políticas educacionais, do mapeamento dos métodos de ensino ou ainda da história da construção dos materiais didáticos, enfatizando-se, na maioria das vezes, o analfabetismo da população. Identifica-se, portanto, uma carência de investigações, que, contemplando novas fontes, novos métodos, novos espaços, novos atores, abordem a multifacetada questão da distribuição social da leitura e da escrita na sociedade brasileira, desde as suas origens coloniais. Buscando contribuir para preencher tal lacuna, o projeto Leitura e escrita aos olhos da Inquisição objetiva traçar, a partir da análise das fontes documentais produzidas pelas visitações do Santo Ofício, um quadro aproximativo da faculdade das letras na América colonial portuguesa. Neste artigo, apresentam-se resultados parciais das pesquisas desenvolvidas no âmbito do referido projeto, analisando-se o conjunto de depoimentos prestados e assinados perante o Santo Ofício constantes do Livro das Denunciações e do Livro das Confissões e Reconciliações, escritos ambos quando da segunda visitação da Inquisição à Capitania da Bahia, entre 1618 e 1620. Cruzando a variável binária assinante versus não assinante com as variáveis sexo, origem geográfica do depoente, etnia, condição religiosa e categoria socioocupacional, esboça-se um perfil sociológico dos letrados nos primórdios da colonização, contexto marcadamente multilíngue e de quase ausência de instituições voltadas à alfabetização. Ao abarcar a questão da distribuição social da leitura e da escrita no período colonial, abarca-se uma das questões-chave para a compreensão da história social do português brasileiro.

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Biografia do Autor

Tânia Lobo, Universidade Federal da Bahia

Graduou-se em Letras na Universidade Federal da Bahia em 1986, concluiu o Mestrado em Linguística Portuguesa Histórica na Universidade de Lisboa em 1993 e o Doutorado em Filologia e Língua Portuguesa na Universidade de São Paulo em 2001. Atualmente é Professora Associada de Língua Portuguesa do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Federal da Bahia e atua nas linhas de pesquisa História da Cultura Escrita no Brasil e Constituição Histórica da Língua Portuguesa e das demais Línguas Românicas, do Programa de Pós-Graduação em Língua e Cultura da mesma universidade. Integra o Programa para a História da Língua Portuguesa (PROHPOR), coordena a equipe baiana do Projeto Nacional Para a História do Português Brasileiro (PHPB) e é também coordenadora, desde agosto de 2010, da Comissão de Pesquisa em História do Português Brasileiro da ALFAL (Associação de Linguística e Filologia da América Latina). Desenvolve pesquisas nas áreas de Linguística Histórica e História da Cultura Escrita, atuando principalmente na investigação dos seguintes temas: constituição sócio-histórica do português brasileiro, história da difusão social da leitura e da escrita no Brasil, sintaxe diacrônica do português brasileiro e do português europeu. Presidiu a Comissão Organizadora do ROSAE - I Congresso Internacional de Linguística Histórica, realizado em Salvador, em julho de 2009.

Ana Sartori, Universidade Federal da Bahia

Graduou-se em Letras Vernáculas na Universidade Federal da Bahia (2003) e, na mesma instituição, concluiu o Mestrado (2010) e o Doutorado (2016), ambos na área de Linguística Histórica, do Programa de Pós-Graduação em Língua e Cultura da Universidade Federal da Bahia. É professora de Língua Portuguesa da UFBA, membro do PROHPOR - Programa para a História do Português, e está vinculada a um subprograma do PROHPOR, o Programa HISCULTE - História da Cultura Escrita no Brasil. Pesquisa atualmente a difusão social da escrita e da língua portuguesa no Brasil, no período que se estende do século XVI ao século XVIII.

Rodrigo Mota Soares, Estudante e bolsista de Iniciação Científica, Universidade Federal da Bahia

Graduando em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Foi monitor da UFBA na disciplina Introdução ao Estudo da Língua Portuguesa. Pertenceu ao Grupo Nêmesis - Estudo do Léxico e da História da Língua Portuguesa, atuando nas áreas de Filologia Textual, Linguística e Lexicografia Históricas, sob a orientação do Prof. Dr. Américo Venâncio Lopes Machado Filho. Atualmente, pertence ao Programa Para a História da Língua Portuguesa (PROHPOR), junto ao subgrupo HISCULTE (História da Cultura Escrita no Brasil), voltando-se à mensuração dos níveis de alfabetismo da Bahia no século XVII, sob a orientação da Profa. Dra. Tânia Lobo e da Profa. Dra. Ana Sartori.

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Publicado

2016-09-05

Como Citar

LOBO, T.; SARTORI, A.; SOARES, R. M. O aporte das fontes inquisitoriais para uma história da difusão social da leitura e da escrita no Brasil colonial. Cadernos de Estudos Lingüísticos, Campinas, SP, v. 58, n. 2, p. 277-298, 2016. DOI: 10.20396/cel.v58i2.8647155. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cel/article/view/8647155. Acesso em: 31 out. 2020.