Português de arremedo

um lado do preconceito linguístico no Brasil

Palavras-chave: Ideologia linguística, Apropriação linguística, Indexicalidade.

Resumo

O presente artigo analisa o uso cotidiano e amplamente difundido do “português de arremedo” entre brasileiros. Adota-se o termo português de arremedo em referência à prática linguística na qual uma pessoa replica palavras e expressões de variedades não padrão, à margem do português padrão, com o intento de fazer graça. Para tanto, utiliza-se uma análise qualitativa a partir de dados que são profusamente compartilhados online através de aplicativos de mensagens, blogs, redes sociais, além da mídia tradicional. Com base em conceitos e pesquisas da sociolinguística e antropologia linguística, busca-se mostrar que (1) o português de arremedo produz uma falsa sensação de inocuidade; (2) a pessoa que produz o português de arremedo — ou seja a pessoa que arremeda o português dos falantes das variedades não padrão, i.e. marginalizadas — ocupa um lugar de fala que é resultado de desigualdade linguística e social; e (3) a pessoa que produz o português de arremedo é, em parte, responsável pela reprodução dessa desigualdade.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Antonio Jose Bacelar da Silva, Universidade do Arizona

Pós-Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Língua e Cultura da Universidade Federal da Bahia. Possui doutorado em Antropologia pela University of Arizona. 

Referências

AMARAL, A. O dialeto Caipira. 3. ed. São Paulo. HUMITEC/Secretaria da Cultura, Ciência, e Tecnologia do Estado de São Paulo, 1976[1920].

ANDRADE, C. 0.; MELO, F. G. de; SCHERRE, M. M P. História e variação linguística: um estudo em tempo real do imperativo gramatical em revistas em quadrinhos da Turma da Mônica. Finos Leitores: Jornal de Letras, Brasilia, v.3, n.1, 2007.

ARAGÃO, M. do S. S. de. Ditongação e monotongação no falar de Fortaleza. Revista Graphos, Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade da Paraíba, João Pessoa, v. 5, n. 1 p. 109-122, 2000.

ARAGÃO, M. do S. S. de. Os estudos fonético-fonológicos nos estados da Paraíba e do Ceará. Revista da Abralin, Revista da Associação Brasileira de Linguística, Pará, v. 8, n. 1, p. 163-184, 2009.

BAGNO, M. Português do Brasil: herança colonial e diglossia. Revista da FAEEBA, v. 15, n. Jan-Jun, p. 37-48, 2001.

BAGNO, M. Cassandra, Fênix e outros mitos. In: FARACO, C. A. (Ed.). Estrangeirismos: guerras em torno da língua. São Paulo: Parábola, 2002. p. 49-83.

BAKHTIN, M. M. Problems of Dostoevsky’s poetics. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1984.

BORTONI, S. Marcos Bagno fala sobre preconceito lingüístico. Disponível em: <http://www.stellabortoni.com.br/index.php/entrevistas/1414-maaios-bagoo-fala-sobai-paiiooiiito-lioguistiio-78894042>. Acesso em: 02 out. 2018.

BORTONI-RICARDO, S. M. The urbanization of rural dialect speakers: a sociolinguistic study in Brazil. New York: Cambridge University Press, 1985.

BORTONI-RICARDO, S. M. Educação em língua materna: a sociolinguística na sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.

BOURDIEU, P. Language and symbolic power. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1991.

CAVALCANTI, M. C. Estudos sobre educação bilíngue e escolarização em contextos de minorias linguísticas no Brazil. D.E.L.T.A., v. 15, n. Especial, p. 385-417, 1999.

CHAVES, L. M. do N.; MELO, F. E. S. de. A despalatização de /l/ na fala da zona ubana de Rio Branco (AC). In: Congresso Nacional de Linguística e Filologia, 13, 2009, Rio de Janeiro. Anais eletrônicos do XIII CNLF. Rio de Janeiro: CiFEFiL, p. 84-98, 2009.

CHUN, E. W. Ideologies of legitimate mockery: Margaret Cho’s Revoicings of Mock Asian. Oxford University Press, 2009.

HILL, J. H. Mock Spanish: a site for the indexical reproduction of racism in American English. Language & Culture. Binghamton University. Symposium #2 1995. Disponível em: <http://language-culture.binghamton.edu/symposia/2/part1/> Acesso em: 05 jan. 2019.

HILL, J. H. The everyday language of white racism. Chichester, U.K.; Malden, MA: Wiley-Blackwell, 2008.

IRVINE, J. T.; GAL, S. Language ideology and linguistic differentiation. In: KROSKRITY, P. V. (Ed.). Regimes of language: ideologies, polities, and identities. Santa Fe, NM: School of American Research Press, 2000. p. 35-83.

MASSINI-CAGLIARI, G. Language policy in Brazil: monolingualism and linguistic prejudice. Language Policy, v. 3, n. 1, p. 3-23, 2004.

OCHS, E. Indexing gender. New York: Cambridge University Press, 1992.

OLIVEIRA, G. M. D. Brasileiro fala português: monolingüismo e preconceito lingüístico. In: SILVA, F. L. D.; MOURA, H. M. D. M. (Ed.). O direito à fala: a questão do preconceito linguístico. Revised edition. Florianópolis: Insular, 2002. p. 83-92.

OLIVEIRA, T. B. Preconceito linguístico e humor em páginas do Facebook. Revista EDUC-Faculdade de Duque de Caxias, v. 2, n. 2, p. 81-101, 2015.

OUSHIRO, L. Can we tell people’s social class just by listening to them? Roseta: Brazilian Linguistics Association (ABRALIN), v. 1, n. 1, 2018. Disponível em: <http://www.roseta.org.br/2018/05/13/can-we-tell-peoples-social-class-just-by-listening-to-them/> Acessado em: 30 dez. 2018.

SCHERRE, M. M. P. Variação da concordância nominal no português do Brasil: influência das variáveis posição, classe gramatical e marcas precedentes. In S. Groβe & K. Zimmermann (Eds.), “Substandard” e mudança no português do Brasil. Frankfurt am Main: Teo Ferrer de Mesquita, 1998, p. 153–188.

SCHERRE, M. M. P. Aspectos sincrônicos e diacrônicos do imperativo gramatical no português brasileiro. Alfa 51, n. 1, p. 189-222, 2007.

SCHERRE, M. M. P. Doa-se lindos filhos de poodle: variação linguística, mídia e preconceito. São Paulo: Parábola, 2008.

SCHERRE, M. M. P. Verdadeiro respeito pela fala do outro: realidade possível? Revista Letra, v. 8, n. 1 & 2, p. 51-62, 2013.

SCHERRE, M. M. P.; NARO, A. J. Duas dimensões do paralelismo formal na concordância verbal no português popular do Brasil. DELTA Revista de Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada v. 9, n. 1, p. 1-14, 1993.

SCHERRE, M. M. P.; NARO, A. J. Sociolinguistic correlates of negative evaluation: variable concord in Rio de Janeiro. Language Variation and Change, v. 26, p. 331-357. 2014.

SILVERSTEIN, M. Indexical order and the dialectics of sociolinguistic life. Language & Communication, v. 23, p. 193-229, 2003.

SILVERSTEIN, M. Private rituals encounters, public ritual indexes. In: SENFT, G.; BASSO, E. (Eds.). Ritual communication. Oxford; New York: Berg Publishers, 2009. p. 271-292.

POSSENTI, S. Preconceito linguístico. 2011. Disponível em: <http://cienciahoje.org.br/coluna/preconceito-linguistico/>. Acesso em: 30 dez. 2018.

SOUZA, P. D. D. S.; SANTOS, A. K. B. Ubanização e monitoração estilística: a variação linguística e as representações da fala caipira nas histórias em quadrinhos. Fórum Lingüístico, v. 15, n. 1, p. 2843-2859, 2018.

Publicado
2019-02-22
Como Citar
Silva, A. J. B. da. (2019). Português de arremedo. Cadernos De Estudos Lingüísticos, 61, 1-19. https://doi.org/10.20396/cel.v61i1.8653608