Resumo
O processo de endividamento das famílias que caracterizou a economia brasileira desde 2005 apresentou fases bem distintas. O artigo tem como hipótese que o processo mais recente de endividamento se caracteriza pelo aumento do crédito acompanhado de uma elevação acelerada da fragilidade financeira das famílias, conforme definição apresentada por Minsky. Com base em indicadores calculados pelo BCB, especialmente o comprometimento da renda, o estudo realiza uma análise descritiva de diferentes aspectos do processo crescente de endividamento vivenciado no período de 2018 a 2022, considerando dados sobre a composição dos saldos de crédito livre à pessoa física, o acesso ao cartão de crédito, a utilização do cartão de crédito na modalidade rotativo pela população de baixa renda e a inadimplência. Conclui-se que, desde 2018, e especialmente a partir de 2021, quando ocorreu o abrandamento dos efeitos das medidas emergenciais adotadas no auge da pandemia, os riscos de descasamento entre os fluxos de entrada e saída de recursos nos orçamentos das famílias que recorreram ao crédito aumentaram rapidamente, dificultando, portanto, que as famílias cumprissem a “restrição de sobrevivência”, na qual a renda disponível deve ser maior ou igual aos custos de sobrevivência.
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