Resumo
A construção dos direitos sociais no Brasil, iniciada em 1988, ainda é refém de um estado de bem-estar inconcluso. Ainda que no período de governo do Partido dos Trabalhadores tenha sido possível enfrentar a questão social (Proni, 2017) com mais ênfase, a fragilidade de tais conquistas impede sua perenidade. Nesse sentido, mesmo que condições essenciais para a liberdade e o bem-estar do ser humano, tal como mobilidade urbana e habitação, sejam pautadas pelo texto constitucional, estas se materializam como um desafio a ser solucionado. Portanto, neste texto, tenho como objetivo indicar e caracterizar a aporofobia como um dos sintomas sociais prementes de um estado de bem-estar social não totalmente concluído; e, em seguida, evidenciar e analisar exemplos de aporofobia em grandes centros urbanos, levando em consideração três diferentes casos observados na paisagem urbana.
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