Resumo
Este estudo examina divergências fonológicas e ortográficas na língua parikwaki (Arawak), falada pelo povo Palikur-Arukwayene na fronteira Brasil-Guiana Francesa. Analisando propostas de diversos autores, o artigo destaca a complexidade na representação dos fonemas /g/ e /ɣ/, cujas análises variam entre a inclusão de /ɣ/ como fonema distinto até sua omissão. As divergências metodológicas refletem-se na ortografia: enquanto grafemas como <g> e <r> representam /g/ e /ɣ/ em propostas recentes, trabalhos iniciais invertiam essa relação. Em nossa proposta, evidenciam-se variações intergeracionais: falantes jovens apagam /ɣ/ em posição intervocálica (ex.: [ku.ˈu.ku] para /ku.ˈɣu.ku/ ‘rato’), podem apagá-lo em posição final (ex.: [pa.ki]~[pakiˠ] para /pa.ˈkig/ ‘sua tia’), enquanto mantêm /g/ na mesma posição (ex.: [si.ˈgis.nɛ̃] para /si.ˈgis.nɛ/ ‘correr’). Idosos, por sua vez, intervocalicamente, mantêm a realização de /ɣ/ suavizada ([ku.ˈˠu.ku]) e fricativizam /g/ ([ka.ˈɣã]~[ka.ˈŋã] ‘morder’). Em posição final, o contraste persiste (ex.: [pa.ˈkiɣ] ‘caititu’ e [pa.ˈkig] ‘sua tia’), reforçando a relevância fonêmica de /ɣ/. A inclusão inconsistente de grafemas para empréstimos (ex.: <f, l, j, z>) e a ausência de consenso sobre sua integração ortográfica ampliam os desafios de padronização. O artigo também aborda a vitalidade do parikwaki, classificado como potencialmente ameaçado devido à pressão do português em contextos formais e à diglossia, com uso restrito a domínios comunitários. Destaca-se a necessidade de políticas linguísticas que envolvam falantes na criação de materiais educativos, considerando variações dialetais históricas (ex.: clãs extintos com possíveis dialetos próprios) e dinâmicas contemporâneas. Conclui-se que a ortografia ideal deve equilibrar critérios fonológicos, mudanças geracionais e participação comunitária, visando à preservação do parikwaki como língua identitária do povo Palikur-Arukwayene.
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