As folhas de videiras das Evas da Ilha de Marajó e a (des)construção de narrativas arqueológicas

Autores

DOI:

https://doi.org/10.20396/rap.v13i1.8654806

Palavras-chave:

Fase Marajoara, Tangas cerâmicas, Arqueologia Queer

Resumo

A teoria queer tem possibilitado uma auto-reflexão à Arqueologia sobre a maneira como constrói a sua definição sobre o “outro” do passado a partir do espelhamento de valores e conceitos hegêmonicos. Diante disto, interpretações cisheteronormativas sobre as sociedades pretéritas têm sido questionadas, visando construir maneiras alternativas de representar o passado, sobretudo, no que diz respeito a gênero e sexualidade. Interpretações arqueológicas têm sugerido, desde a segunda metade do século XIX, que as tangas de cerâmica da fase marajoara eram usadas exclusivamente por mulheres e isto tem sido reproduzido até os dias de hoje. Este artigo revisita, a partir da crítica da Arqueologia Queer, a bibliografia referente às tangas cerâmicas com o intuito de compreender como esta ideia foi formatada, visando também confrontar os dados contextuais disponíveis.

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Biografia do Autor

Emerson Nobre da Silva, Universidade de São Paulo

Doutor em Museu de Arqueologia e Etnologia pela Universidade de São Paulo.

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Publicado

2019-07-22

Como Citar

SILVA, E. . N. da. As folhas de videiras das Evas da Ilha de Marajó e a (des)construção de narrativas arqueológicas. Revista Arqueologia Pública, Campinas, SP, v. 13, n. 1[22], p. 155–179, 2019. DOI: 10.20396/rap.v13i1.8654806. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rap/article/view/8654806. Acesso em: 4 dez. 2022.