Camões antiliteratura? Um tópico e algumas questões teórico-historiográficas

Palavras-chave: Poesia lírica, Século XVI, Estudos camonianos, Tópica, Retórica

Resumo

É algo anacrônico ler a lírica de Camões como se fosse um ato discursivo afim à contemporânea “literatura”. Essa limitação epistêmica se nutre da ausência de um “contraconceito” rigoroso. Corrigir a defectividade pragmática da escrita por meio do preenchimento hermenêutico de lacunas históricas é uma tarefa ingrata, pois tudo submete à regra dos atuais estudos literários, suas inércias teórico-institucionais. Não bastasse isso, a própria obra camoniana em diversos passos exprime um non confundar: acusa, nas conhecidas redondilhas “Sôbolos rios que vão”, os poetas que cantaram o amor profano de “sofistas”; ironiza, na boca dum Duriano, o “amor fino como melão” a que o apaixonado Filodemo se entregava; representa, na figura ridícula do infeliz sátiro da égloga, o desespero amoroso como “imaginação” do que “a rudeza e a ciência agreste lhe ensinara”. Essas figuras ganham importância quando reimaginamos as coordenadas ético-retóricas da escrita de Quinhentos. Nosso trabalho propõe algumas questões à volta desse “Camões antiliteratura” como pequena contribuição para a reconstrução do espaço pragmático de sua obra, aplicável talvez à poesia pré-burguesa.

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Biografia do Autor

Matheus de Brito, Universidade Estadual de Campinas

Pesquisador colaborador (pós-doc.) no Departamento de Teoria Literária, Instituto de Estudos da Linguagem – IEL-Unicamp.

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Publicado
2019-12-13
Como Citar
de Brito, M. (2019). Camões antiliteratura? Um tópico e algumas questões teórico-historiográficas. Remate De Males, 39(2), 904-924. https://doi.org/10.20396/remate.v39i2.8654709