Historia magistra vitae e sua (des)continuidade em Pinheiro Chagas

Autores

  • Cleber Vinicius do Amaral Felipe Universidade Federal de Uberlândia

DOI:

https://doi.org/10.20396/remate.v41i2.8663464

Palavras-chave:

Pinheiro Chagas, Historia magistra vitae, Retórica

Resumo

O topos historia magistra vitae, sistematizado por Cícero para afirmar o caráter exemplar e moral da história, foi apropriado por cronistas, historiadores e romancistas portugueses ao longo dos séculos XV-XIX. No Oitocentos, em particular, lugares-comuns recorrentes antigos e modernos foram associados a artifícios românticos (expressivos, psicológicos, científicos, patrióticos etc.) e circularam sobejamente nas letras portuguesas. O antagonismo entre historiadores e literatos não deve ofuscar as tópicas compartilhadas, os diálogos travados e os projetos comuns, especialmente aqueles com apelo nacional. Pretende-se avaliar de que maneira a historiografia portuguesa do século XIX retomou preceitos outrora constituintes e definidores da historia magistra vitae, conferindo especial atenção aos escritos de Pinheiro Chagas. Por meio desse trabalho, notamos dois movimentos simultâneos em se tratando da historiografia portuguesa oitocentista: a perseverança de aspectos epistêmicos, normativos e pedagógicos, outrora reunidos na concepção de história exemplar, e a descontinuidade do topos, tão perceptível quanto maior for nosso interesse em historicizar o passado.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Cleber Vinicius do Amaral Felipe, Universidade Federal de Uberlândia

Doutorado em História pela Universidade Estadual de Campinas. Professor do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia.

Referências

ANÔNIMO. Retórica a Herênio. São Paulo: Hedra, 2005.

ARAÚJO, Valdei Lopes de. Sobre a permanência da expressão historia magistra vitae no século XIX brasileiro. In: NICOLAZZI, Fernando (Org.). Aprender com a história? O passado e o futuro de uma questão. Rio de Janeiro: FGV, 2011, p. 131-147.

ASSIS, Arthur Alfaix. Alexandre Herculano entre a imparcialidade e a parcialidade. História da Historiografia, Ouro Preto, v. 13, n. 32, 2020, pp. 289-329.

BOUTON, Christopher. Learning from History – The Transformations of the Topos Historia Magistra Vitae in Modernity. Journal of the Philosophy of History, 2018, pp. 1-33.

CARVALHO, Francisco Freire de. Lições elementares de poética nacional, seguidas de um breve ensaio sobre a crítica literária. Lisboa: Tipografia Rollandiana, 1840.

CATROGA, Fernando. Romantismo, literatura e história. In: TORGAL, Luís Reis; ROQUE, João Lourenço (Coords.). História de Portugal. O Liberalismo (1807-1890). Vol. 5. Lisboa: Círculo de Leitores,1994.

CEZAR, Temístocles. Historia magistra vitae. Ensaio sobre a (in)definição do topos nos projetos de escrita da história do Brasil no século XIX. In: PROTÁSIO, Daniel Estudante (Org.). Historiografia, cultura e política na época do Visconde de Santarém. Lisboa: Editora do Centro de História da Universidade de Lisboa, 2019, pp. 21-44.

CHAGAS, Pinheiro. Ensaios críticos. Porto: Casa de Viúva Moré, 1866.

CHAGAS, Pinheiro. Novos ensaios críticos. Porto: Casa de Viúva Moré, 1867.

CHAGAS, Pinheiro. O terramoto de Lisboa: romance original. Lisboa: Livraria Editora de Mattos Moreira, 1874.

CHAGAS, Pinheiro. O naufrágio de Vicente Sodré. Lisboa: Livraria de Antonio Maria Pereira, 1894.

CHAGAS, Pinheiro. A máscara vermelha. Romance Histórico Original. 3. ed. Lisboa: Empreza da Historia de Portugal, 1902a.

CHAGAS, Pinheiro. O juramento da Duquesa. Romance Histórico Original. 3. ed. Lisboa: Empreza da Historia de Portugal, 1902b.

CHARTIER, Roger. A verdade entre a ficção e a história. In: SALOMON, Marlon (Org.). História, verdade e tempo. Chapecó: Argos, 2011, pp. 137-146.

FELIPE, Cleber Vinicius do Amaral. Itinerários da conquista: uma travessia por mares de papel e tinta (Portugal, séculos XVI, XVII e XVIII). Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), 2015.

GANDRA, Jane Adriane. A (de)formação da imagem: Pinheiro Chagas refletido pelo monóculo de Eça de Queiroz. 2007. Dissertação (Mestrado em Letras) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 2007.

GANDRA, Jane Adriane. Pinheiro Chagas, um escritor olvidado. 2012. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, 2012.

GINZBURG, Carlo. O fio e os rastros: verdadeiro, falso, fictício. Trad. Rosa Freire d’Aguiar e Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

HANSEN, João Adolfo. Barroco, Neobarroco e outras ruínas. Floema Especial (UESB), ano II, n. 2, 2006, pp. 10-67.

HARTOG, François. Evidência da história: o que os historiadores veem. Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.

HERCULANO, Alexandre. História de Portugal. Tomo Primeiro. Lisboa: Casa da Viúva Bertrand e Filhos, 1846.

HERCULANO, Alexandre. História de Portugal – desde o começo da monarquia até o fim do reinado de Afonso III. 3. ed. Lisboa: Casa da Viúva Bertrand e Filhos, 1863.

HORÁCIO. A arte poética. Trad. e estudo de Dante Tringali. São Paulo: Musa, 1994.

KANTOROWICZ, Ernst Hartwig. Os dois corpos do Rei: um estudo sobre teologia política medieval. Trad. Cid Knipel Moreira São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Trad. Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira. Revisão de César Benjamin. Rio de Janeiro: Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2006.

MÁRQUEZ, Jaime Valenzuela. Relaciones jesuitas del terremoto de 1730: Santiago, Valparaíso y Concepción. Cuadernos de Historia, n. 37, 2012, pp. 195-224.

MARTINS, Oliveira. Advertência. In: História de Portugal. Lisboa: Guimarães Editores, 1972.

MEGIANI, Ana Paula Torres; CERQUEIRA, André Sekkel. Como se escrevia a história no século XVII: o uso dos tratados espanhóis, italianos e franceses pelos historiadores portugueses. Revista de História, São Paulo, n. 179, 2020, pp. 1-32.

MICHELET, Jules. Prefácio de 1868. Trad. Lilia Moritz Schwarcz. In: MALERBA, Jurandir (Org.). Lições de história: o caminho da ciência no longo século XIX. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010.

MORGANTI, Bento. Carta de hum amigo para outro, em que se dá succinta noticia dos effeitos do terremoto, succedido em o Primeiro de Novembro de 1755. Com alguns principios fisicos para se conhecer a origem, e causa natural de similhantes phenómenos terrestres. Lisboa, Offic. Domingos Rodrigues, 1756.

OLIVEIRA, Maria da Glória de. Biografia e historia magistra vitae: sobre a exemplaridade das vidas ilustres no Brasil oitocentista. Anos 90, Porto Alegre, v. 22, n. 42, 2015, pp. 273-294.

SILVA, Manoel Telles da. História da Academia Real da História Portugueza. Lisboa: Officina de Joseph Antonio Sylva, 1727.

SINKEVISQUE, Eduardo. Usos da écfrase no gênero histórico seiscentista. História da Historiografia, n. 12, 2013, pp. 45-62.

WHITE, Hayden. Trópicos do discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo: Edusp, 2001, pp. 137-151.

ZURARA, Gomes Eanes de. Crónica de Guiné. 2. ed. Introdução, novas anotações e glossário de José de Bragança. Barcelos: Livraria Civilização Editora, 1973.

ZURARA, Gomes Eanes de. Crônica da Tomada de Ceuta. Lisboa: Publicações Europa-América, 1992.

Downloads

Publicado

2021-12-30

Como Citar

FELIPE, C. V. do A. Historia magistra vitae e sua (des)continuidade em Pinheiro Chagas. Remate de Males, Campinas, SP, v. 41, n. 2, p. 449–466, 2021. DOI: 10.20396/remate.v41i2.8663464. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/remate/article/view/8663464. Acesso em: 23 maio. 2022.