O corte urbano, as ambiências situadas e o “paradigma indiciário”

ferramentas para a fabricação de um olhar compartilhado sobre a cidade

Autores

DOI:

https://doi.org/10.20396/rua.v26i2.8663419

Palavras-chave:

Corte urbano, Ambiência, Paradigma indiciário, Estrutura, Totalidade, Cidade, Tecnologias da escrita, Análise do discurso, Fenomenologia

Resumo

Este artigo apresenta uma discussão teórica sobre o valor heurístico dos instrumentos descritivos da cidade nas pesquisas sobre as ambiências situadas, a partir de uma reflexão sobre o corte urbano e o modelo epistemológico que Carlo Ginzburg chamou de “indiciário”. Essa reflexão foi realizada no âmbito de uma pesquisa de campo interdisciplinar sobre o problema da coleta de lixo doméstico na cidade de São Paulo, Brasil. Primeiramente, buscamos caracterizar os elementos dispersos e heterogêneos – relativos aos sujeitos e ao espaço construído – que o corte permite reunir enquanto “pistas” que permitem visualizar uma ambiência, concebida enquanto unidade. Em seguida, discutimos o estatuto teórico dessa unidade, pensada como estrutura. Introduzimos, para tanto, a distinção entre objeto real e objeto de conhecimento, formulada em inícios do século XX pelo fundador da linguística moderna, Ferdinand de Saussure. Nosso intuito é com isso evitar uma concepção de espaço baseada em uma ideia substancialista de “totalidade”. A partir dessas considerações, definiremos o corte não como uma “representação do espaço” (um objeto real), mas como o “registro de um olhar” sobre ele (um objeto teórico). Por último, enquanto tecnologia de escrita, o corte será caracterizado como uma ferramenta para a fabricação de um olhar compartilhado sobre a cidade. Nesse sentido, ele pode contribuir para estabelecer um terreno comum de debate entre os diversos e heterogêneos campos disciplinares e registros de saber sobre a experiência sensível convocados pela noção de ambiência.

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Biografia do Autor

Carolina Rodríguez-Alcalá, Universidade Estadual de Campinas

Professora Plena (Linguística) da Universidade Estadual de Campinas. Pesquisadora  (Laboratório de Estudos Urbanos - LABEURB, NUDECRI) da Universidade Estadual de Campinas.

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Publicado

2020-11-30

Como Citar

RODRÍGUEZ-ALCALÁ, C. . O corte urbano, as ambiências situadas e o “paradigma indiciário”: ferramentas para a fabricação de um olhar compartilhado sobre a cidade . RUA, Campinas, SP, v. 26, n. 2, p. 331–360, 2020. DOI: 10.20396/rua.v26i2.8663419. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rua/article/view/8663419. Acesso em: 28 maio. 2022.

Edição

Seção

Estudos