Sanção em Fonoaudiologia: um modelo de organização dos sintomas de linguagem

Autores

  • Gisele Gouvêa Universidade Federal Fluminense
  • Regina Maria Ayres de Camargo Freire Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
  • Christian Ingo Lenz Dunker Universidade de São Paulo

DOI:

https://doi.org/10.20396/cel.v53i1.8636541

Palavras-chave:

Fonoaudiologia. Psicanálise. Linguística.

Resumo

Este artigo tem como objetivo apresentar o esboço de um modelo de organização dos sintomas em Fonoaudiologia, no quadro de uma hipótese de multiestratificação lingüística do inconsciente. Postulamos que os sintomas de linguagem pertencem a uma estrutura complexa de múltiplos estratos e interestratos sucessivos e superpostos que operam por contradição, oposição e diferença. Esta estrutura contém os intervalos espaciais, temporais e lógicos da linguagem, formando uma espécie de grade topológica dividida esquematicamente nos eixos horizontais - escrita, língua e fala – em relação aos eixos verticais – sujeito, Outro, metáfora e metonímia. Nossa hipótese é de há que um meta-procedimento, presente na clínica fonoaudiológica de modo constitutivo e característico, a que chamamos de sanção. Traduzir, transcrever e transliterar são formas diferentes de sancionar um sintoma de linguagem. Observamos que os sintomas de linguagem, embora emergindo predominantemente em um sobre os outros eixos, criam uma desarmonia de todo o sistema. Esta desarmonia é própria do funcionamento ordinário da linguagem. Os sintomas de linguagem são apenas exagerações ou restrições deste processo. Isto posto, isolamos o eixo da escrita como aquele que sustenta primariamente a tipologia proposta, ou seja, seria na relação sujeito falante-escrita que se constituiriam os tipos clínicos. Assim, se o sintoma de fala, por sua estrutura de sanção, responde à estratégia de tradução, teríamos um tipo clínico que levaria ao privilégio de uma estratégia no manejo terapêutico. Isto porque supusemos que a mudança no manejo da sanção impõe outros modos à estrutura de funcionamento da linguagem. O segundo tipo responderia à estratégia da transcrição e, o terceiro, à estratégia da transliteração. Concluímos que esta proposta está sujeita à validação, tanto pela experiência clínica como pela contra argumentação teórica. Mas nos parece um caminho promissor que poderá dotar a práxis fonoaudiológica de um estatuto clínico, tornando-a singular.

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Biografia do Autor

Gisele Gouvêa, Universidade Federal Fluminense

Professora do Departamento de Formação Específica em Fonoaudiologia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Regina Maria Ayres de Camargo Freire, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Atualmente é professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Christian Ingo Lenz Dunker, Universidade de São Paulo

Psicanalista, Professor Titular do Instituto de Psicologia da USP (2014) junto ao Departamento de Psicologia Clínica.

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Publicado

2011-06-07

Como Citar

GOUVÊA, G.; FREIRE, R. M. A. de C.; DUNKER, C. I. L. Sanção em Fonoaudiologia: um modelo de organização dos sintomas de linguagem. Cadernos de Estudos Linguísticos, Campinas, SP, v. 53, n. 1, p. 7–26, 2011. DOI: 10.20396/cel.v53i1.8636541. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cel/article/view/8636541. Acesso em: 5 fev. 2023.

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