As meninas hoje tão muito soltas

os discursos institucionais que fundamentam o processo de regulação moral

Palavras-chave: Gênero, Sexualidade, Adolescência, Regulação moral, Meninas

Resumo

Este artigo trata da operacionalização das normas sociais por meio dos discursos institucionais de duas escolas do ensino fundamental II nas capitais São Paulo e Salvador. Nas interações cotidianas, os atores institucionais põem e explicam as regras de gênero nas quais as pessoas se apoiam para construir sua identidade e conduzir a vida. Sobressai uma discussão acerca das mudanças comportamentais de meninas na contemporaneidade, situando conteúdos normativos e valorativos implicados nos constrangimentos morais que permeiam as relações cotidianas entre direção, inspetoras de disciplina, professores e as estudantes. Esse intricado processo de regulação do comportamento feminino é condicionado por uma visão adultocêntrica e alarmista sobre as dinâmicas de construção da identidade de gênero entre adolescentes. As etnografias ainda permitem vislumbrar como as especificidades contextuais podem contribuir na polarização de modos de ser menina ou no alargamento de possibilidades dentro do espectro de feminilidade boa/má.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Jamile Silva Guimarães, Universidade de São Paulo

Doutora em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

Referências

Abramo, H. (1997). Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil. Revista Brasileira de Educação, 5-6, 25-36.

Attwood, F. (2006). Sexed up: Theorizing the sexualization of culture. Sexualities, 9(77), 77-94.

Brandão, E. R., Cabral, C. S., Ventura, M., Paiva, S., Bastos, L., Oliveira, N., et al. (2017). Os perigos subsumidos na contracepção de emergência: moralidades e saberes em jogo. Horizontes Antropológicos, 23, 131-161.

Britzman, D. (2010). Curiosidade, sexualidade e currículo. In G. Louro (Org.), O corpo educado: Pedagogias da sexualidade (pp. 83-112). Belo Horizonte: Autêntica.

Cabral, C. S., & Heilborn, M. L. (2010). Avaliação das políticas públicas sobre educação sexual e juventude: da Conferência do Cairo aos dias atuais. In Brasil, Secretaria de Política para Mulheres (Org.), Rumos para Cairo + 20: Compromissos do governo brasileiro com a plataforma da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (pp. 101-128). Brasília, DF: Cidade Gráfica.

Cohen, S. (2011). Folk devils and moral panics: the creation of the mods and rockers. New York: Routledge.

Critcher, C. (2009). Widening the focus: moral panics as moral regulation. British Journal of Criminology, 49(1), 17-34.

Duarte, L. F. (1987). Pouca vergonha, muita vergonha: Sexo e moralidade entre as classes trabalhadoras. In J. Lopes (Org.), Cultura e identidade operária: Aspectos da cultura de classe trabalhadora (pp. 203-226). Rio de Janeiro: Marco Zero/UFRJ.

Duncan, N. (2004). It’s important to be nice, but it’s nicer to be important: Girls, popularity and sexual competition. Sex Education: Sexuality, Society and Learning, 4(2), 137-148.

Felipe, J. (2000). Infância, gênero e sexualidade. Educação e Realidade, 25(1), 54-87.

Fine, M. (1988). Sexuality, schooling, and adolescent females: The missing discourse of desire. Harvard Educational Review, 58(1), 29-53.

Foucault, M. (2009). História da sexualidade I: A vontade de saber. São Paulo: Graal.

Goode, E., & Ben-Yehuda, N. (2009). Moral panics: The social construction of deviance. Oxford: WileyBlackwell.

Gill, R. (2007). Postfeminist media culture: Elements of sensibility. European Journal of Cultural Studies, 10(2), 147-166.

Gill, R. (2012). The sexualisation of culture? Social and Personality Psychology Compass, 6(7), 483498.

Guimarães, J. (2018). Dinâmicas interacionais do bullying entre meninas: explorando as tramas do aprendizado de gênero. Ex æquo, (38), 167-182.

Harvey, J., & Ringrose, J. (2016). Competition, accountability and performativity: Exploring schizoid neo-liberal ‘equality objectives’ in a UK primary school. In E. Reimers, & L. Martinsson (Eds.), Education and political subjectivities In neoliberal times and places emergences of norms and possibilities (pp. 49-67). London: Routledge.

Hey, V. (1997). The company she keeps: an ethnography of girls' friendship. Buckingham: Open University press.

Hier, S. (2008). Thinking beyond moral panic: Risk, responsibility and the politics of moralization. Theoretical Criminology, 12(2), 173-190.

Hier, S. (Ed.). (2011). Moral panic and the politics of anxiety. London: Routledge.

Knauth, D., Heilborn, M. L., Bozon, M., & Aquino, E. M. (2006). Sexualidade juvenil: Aportes para as políticas públicas. In M. L. Heilborn, E. M. Aquino, M. Bozon, & D. Knauth (Orgs.), O aprendizado da sexualidade: Reprodução e trajetórias sociais de jovens brasileiros (pp. 399-417). Rio de Janeiro: Garamond/Fiocruz.

Lima e Souza, A., & Lima, T. L. (2008). Práticas educativas atravessadas pelo gênero: Percepções de docentes sobre identidades de meninas e meninos. In R. M. Tenorio, & J. A. Lordelo (Orgs.), Formação pela pesquisa: Desafios pedagógicos, epistemológicos e políticos (pp. 255-273). Salvador: Edufba.

Louro, G. (2008). Gênero, sexualidade e educação: Uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Vozes.

Malfitano, A. P. S., Adorno, R. C. F., & Lopes, R. E. (2011). Um relato de vida, um caminho institucional: Juventude, medicalização e sofrimentos sociais. Interface, 15(38), 701-714.

Martin, K. A. (1996). Puberty, sexuality and the self: Girls and boys at adolescence. New York: Routledge.

Moro, C. (2001). A questão do gênero no ensino de ciências. Chapecó: Argos.

Renold, E. (2008). Queering masculinity: Re-theorising contemporary tomboyism in the schizoid space of innocent/heterosexualized young femininities. Girlhood Studies, 1(2), 129-151.

Ribeiro, P., Souza, N., & Souza, D. (2004). Sexualidade na sala de aula: Pedagogias escolares de professoras das séries iniciais do Ensino Fundamental. Estudos Feministas, 12(1), 109-129.

Ringrose, J. (2006). A new universal mean girl: Examining the discursive construction and social regulation of a new feminine pathology. Feminism & Psychology, 16(4), 405-424.

Ringrose, J., & Renold, E. (2012). Slut-shaming, girl power and sexualisation: Thinking through the politics of the international slutwalks with teen girls. Gender and Education, 24(3), 333-343.

Ringrose, J., Harvey, L., Gill, R., & Livingstone, S. (2013). Teen girls, sexual double standards and sexting: Gendered value in digital image exchange. Feminist Theory, 14(3), 305-323.

Simmons, R. (2011). Odd girl out: The hidden culture of aggression in girls. New York: Harcourt.

Tolman, D. (2002). Dilemmas of desire: Teenage girls talk about sexuality. Cambridge: Harvard University Press.

Vianna, C., & Finco, D. (2009). Meninas e meninos na educação infantil: Uma questão de gênero e poder. Cadernos Pagu, 33, 265-283.

Youdell, D. (2006). Impossible bodies, impossible selves. Dordrecht: Springer.
Publicado
2019-05-09
Como Citar
Guimarães, J. S. (2019). As meninas hoje tão muito soltas. Pro-Posições, 30, 1-25. Recuperado de https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/proposic/article/view/8656721
Seção
Artigos