Resumo
Este artigo tem por objetivo a investigação do elemento fascista nas obras A Nova Ordem, de Bernardo Kucinski (2019), e O dia de um oprítchnik, de Vladimir Sorokin (2022[2006]). Respectivamente enquadrados nos gêneros distopia e antiutopia, tais romances não buscam meramente explorar as tendências autocráticas percebidas em suas sociedades nos momentos de publicação dos livros, quais sejam, o governo Bolsonaro e o primeiro mandato do governo Putin, respectivamente, e alertar o leitor a seu respeito, mas também refletir sobre resquícios de autoritarismo imbricados nas culturas nacionais do Brasil e da Rússia. Assim, essas narrativas realizam a anacrônica mescla de um elevado grau de desenvolvimento tecnológico com a ressurreição de instituições nascidas em períodos de intensa repressão política, como o DOI-CODI, no romance brasileiro, e a sanguinária polícia política de Ivan, o Terrível (oprítchnina), no russo. Partindo dos conceitos de “fascismo eterno”, de Umberto Eco, e de elaboração do passado, de Theodor Adorno, entende-se que os constantes ciclos de opressão e violência vividos por ambos os países se devem a uma ineficácia na eliminação dos pressupostos sociais que os originaram, permitindo a renovação e restauração de estruturas totalitárias. Ao nosso ver, as meditações propostas por tais obras são essenciais para pensarmos em formas de superar esses fantasmas que continuam a retornar.
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