Escrita e gramática como tecnologias urbanas: a cidade na história das línguas e das ideias linguísticas

Autores

  • Carolina Rodríguez-Alcalá Universidade Estadual de Campinas

DOI:

https://doi.org/10.20396/cel.v53i2.8636988

Palavras-chave:

Escrita. Gramática. Cidade.

Resumo

Este texto propõe relacionar a história da língua e do conhecimento linguístico à história da cidade, através da caracterização de tecnologias como a escrita, a gramática e o dicionário enquanto tecnologias urbanas. Procuramos indicar, de um lado, a coincidência histórica que é possível constatar entre os processos de gramatização e de urbanização, através de um breve percurso por momentos chaves da história de Ocidente: a invenção da escrita, o surgimento da gramática greco-latina na Antiguidade, sua transferência como modelo de descrição para todas as línguas do mundo a partir do Renascimento europeu e a gramatização brasileira do português no século XIX. De outro lado, queremos mostrar que a elaboração e a transferência dessas tecnologias são indissociáveis de um imaginário da escrita e do urbano, inscrito numa memória da permanência — dos sujeitos e das línguas —, que incide nas relações políticas estabelecidas tanto entre as sociedades como no interior das mesmas. A partir da leitura de alguns documentos dos jesuítas, analisaremos de que modo esse imaginário agiu na colonização no Brasil, orientando o trabalho de instrumentação das línguas indígenas e dos novos espaços conquistados pelos portugueses e conformando relações de força particulares com seus habitantes. Assinalaremos, finalmente, como essas relações se projetaram no tempo na nova sociedade constituída, já no contexto da gramatização do português vinculada à consolidação do Estado nacional independente, em que esse imaginário que estruturara num primeiro momento a relação entre europeus e índios passou a afetar a relação entre brasileiros e brasileiros, significados de acordo com sua inscrição no espaço (urbano/não urbano) e o domínio dessas tecnologias (letrados/iletrados).

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Biografia do Autor

Carolina Rodríguez-Alcalá, Universidade Estadual de Campinas

Laboratório de Estudos Urbanos (Nudecri) da Universidade Estadual de Campinas

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Publicado

2011-12-26

Como Citar

RODRÍGUEZ-ALCALÁ, C. Escrita e gramática como tecnologias urbanas: a cidade na história das línguas e das ideias linguísticas. Cadernos de Estudos Linguísticos, Campinas, SP, v. 53, n. 2, p. 197–217, 2011. DOI: 10.20396/cel.v53i2.8636988. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cel/article/view/8636988. Acesso em: 4 dez. 2021.

Edição

Seção

Artigos