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  • Chamada para Dossiê: Um inventário de instantes: coleções, acervos e conexões com a história da arte

    2022-11-04

    Paixão, ambição, conquista, compulsão, dedicação, dispersão, destruição, abandono...  Normalmente era a partir dessas estratégias que a ação dos colecionadores era percebida, como que suprimindo qualquer possibilidade de prática corrente e de ato político, integrado a um sistema mais amplo. É fato que nas últimas décadas, um número expressivo de pesquisadores voltou-se para a compreensão formativa e discursiva das coleções artísticas, ampliando nossa compreensão das ações envolvidas no processo. Coleções e acervos passam a ser percebidos como projetos políticos, apreendidos como espaços de pesquisa pluridimensionais. Assim, o modo de perceber e compreender as coleções dedicadas às artes visuais mostra-nos uma intrincada relação com a constituição e a prática da História da Arte, em toda sua abrangente pluralidade e seus arbítrios excludentes.

    As coleções possibilitam apreender o fenômeno artístico pela visão dos gostos de seus proprietários e da posição ideológica das instituições museológicas, inseridos numa cultura e tempo particulares, estabelecer relações entre diferentes contextos históricos e nexos entre materialidades distintas, especular sobre as formas de ajuntamento, circulação, de visibilidade (ou invisibilidade), de exposição das obras e de suas narrativas, numa extensão que opera das características estéticas aos modelos mercadológicos de interação. Por meio das coleções, ainda é possível alcançar modelos de formalização que transformaram conjuntos de obras em acervos: sistemas institucionais controlados e pretensamente hierarquizados.

    O trânsito das coleções, as mudanças de proprietários e de localizações permitem constantes reescritas sobre as obras que as compõem e sobre o próprio conjunto, indicando o quanto as situações de proveniência, pertencimento, organização e formas de exibição vão interagindo com as obras e oferecendo outras perspectivas de enfrentamento e compreensão. Os acervos são capazes de nos apresentar não apenas os coletores, os selecionadores e os mantenedores de tais conjuntos, mas, também, muito nos esclarecem sobre a apreciação, a recepção crítica e a compreensão das intenções autorais, bem como do desafio de pensar a arte em coletivo. A própria história da história da arte alinha-se a diferentes modelos de colecionismo: devotados à celebração de um passado autorizado, delineados pela necessidade pedagógica, pela preservação urgente de uma cultura ameaçada ou por estratégias políticas e econômicas especificas, como modo de bem transmitir um gosto, uma posição ideológica ou a excelência e a tradição dos mestres e suas instituições. De certo, a história das coleções extrapola os limites das narrativas da história da arte exemplar, praticada até recentemente. Muitas coleções desafiam, pelo olhar interessado e arbitrário dos colecionadores ou pelas frestas das reservas técnicas dos museus, a ordem classificatória vigente em tempos distintos e as práticas historiográficas da arte.

    Proposto pela editoria da Revista MODOS, no ano de celebração de 10 anos do Grupo de Pesquisa “História da Arte: modos de ver, exibir e compreender”, este dossiê busca acolher pesquisas recentes que pensam o artístico, seu juízo de valor e histórias em suas conexões e interações por meio de coleções e acervos. Os questionamentos que marcam os atuais debates sobre as interações entre a produção e a circulação cultural contemporâneas operam como marcos referenciais para discutir os processos relativos ao colecionamento e ao colecionismo da arte nos últimos dois séculos: coleções feitas, desfeitas, refeitas, coleções que ainda estão por vir.

    Prazo de submissão: 30 de abril 2023.

    Organização: Maria de Fátima Morethy Couto (Unicamp); Marize Malta (UFRJ); Emerson Dionisio Oliveira (UnB).

    Observação: No momento da submissão do artigo na seção DOSSIE, por favor, indicar para qual dossiê está submetendo o artigo nos "Comentários para o editor".

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  • Chamada para dossiê: Arte vulnerável: coleções, histórias, pesquisa, exposições

    2022-11-04

    O dossiê pretende reunir artigos que abordem acervos e coleções de Arte que muitas vezes não fazem parte do mainstream das coleções museográficas, mas que têm dialogado com a poética de artistas plásticos em diferentes momentos da História da Arte.

    O termo coleção vulnerável gera a pergunta: “O que seria vulnerável, as pessoas que produziram os trabalhos de arte ou a coleção?”

    Quando focalizamos a produção artística de pessoas em situação de vulnerabilidade, referimo-nos a trabalhos artísticos que não circulam nos âmbitos tradicionais de exposição; não participam do mercado da arte e dependem geralmente, de algum sistema de cuidado e financiamento que assegure a preservação, o estudo, a expografia comentada.

    Há numerosos exemplos no Brasil de acervos deste tipo, incluindo:

    • coleções de arte infantil, como os trabalhos reunidos por Mário de Andrade, atualmente abrigados no Instituto de Estudos Brasileiros da USP;
    • acervos de pacientes psiquiátricos, como os trabalhos do Museu do Inconsciente no Rio de Janeiro, e do Museu de Arte Osório César em Franco da Rocha;
    • o acervo de trabalhos de prisioneiros políticos reunidos por Alípio Freire;
    • coleções de fotografias, como cartões de visitas de escravos no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro;
    • acervos de arte popular, como o Museu do Cordel Olegário Fernandes em Caruaru;
    • coleções de Arte Indígena, como a Coleção Darcy Ribeiro, Berta Ribeiro e Eduardo Galvão, abrigado no Memorial dos Povos Indígenas em Brasília.

    Da mesma forma, existem inúmeros acervos internacionais de produções infantis, de Outsider Art / Art Brut, produções realizadas em campos de concentração, em campos de refugiados, arte de povos originários, entre outros.

    Quando focalizamos a coleção como vulnerável, pensamos nos patrimônios tombados expostos a vandalismo ou intempéries climáticas (como as pilastras pintadas por Gentileza no Gasômetro no Rio de Janeiro, ou como os trabalhos rupestres sob os cuidados da Fundação Museu do Homem Americano – FUMDHAM – no Parque Nacional Serra da Capivara) ou acervos de trabalhos criados com materiais perecíveis ou frágeis.  Também se incluem acervos que não contam com as verbas necessárias para manter a coleção ativa em diálogo com a comunidade, mesmo em se tratando de artefatos de coleções mainstream. Ocorre que coleções valorizadas em determinada época podem sofrer perda de status, diante de mudanças de desígnios ou do interesse dos novos gestores. Dessa forma, a flutuação na visão da sociedade frente a determinados tipos de produção pode levar acervos tradicionais consolidados a se tornarem vulneráveis, sofrendo sérios riscos de desmonte.

    Temos presenciado em governos recentes que o corte de orçamento para manutenção e pesquisa das entidades culturais e de ensino impacta diretamente na segurança do legado cultural, inclusive no caso de instituições sólidas como o Museu Nacional do Rio de Janeiro que pegou fogo no dia 2 de setembro de 2018 e num galpão da Cinemateca Brasileira em São Paulo que perdeu parte do seu acervo no fogo em julho de 2021. Desta forma, coleções que não são vulneráveis a priori, podem sofrer impactos negativos mediante ações governamentais neoliberais.

    No presente dossiê, buscamos acolher, numa perspectiva ampliada, artigos que discutem as coleções vulneráveis no sentido mais abrangente possível, contribuindo para multiplicar práticas que proporcionem uma curadoria ativa, dialogando com o entorno, incentivando a interlocução com pesquisadores, de modo a divulgar histórias e promover a presença do acervo na comunidade.  

    Os eixos privilegiados nesse número serão

    • Processos de constituições de acervos de artistas vulneráveis;
    • Relações de coleções vulneráveis com artistas mainstream;
    • Metodologias de pesquisa e socialização de conhecimentos sobre acervos vulneráveis;
    • Interlocução entre entidades / instituições que abrigam coleções;
    • Impactos de ações / omissões de políticas públicas sobre as coleções;
    • Produções fora dos eixos dominantes;
    • Questões éticas na coleta e exposição.

    Palavras-chave: História da Arte; Coleções de Arte; Vulnerabilidade; Preservação de patrimônios

     

    Prazo de submissão: 31 de julho de 2023.

    Organizadoras:  Lucia Reily (Universidade Estadual de Campinas) e Maria Cristina da Rosa Fonseca da Silva (Universidade do Estado de Santa Catarina).

    Observação: No momento da submissão do artigo na seção DOSSIE, por favor, indicar para qual dossiê está submetendo o artigo nos "Comentários para o editor".

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  • Chamada para dossiê: Processos curatoriais e exposições de artes indígenas no Brasil

    2022-11-04

    Formas expressivas sempre estiveram presentes, com grande diversidade e sofisticação, entre povos indígenas de todas as partes do mundo, por meio da dança, da música, da pintura, cerâmica, cestaria, escultura em madeira, plumária, literatura oral, entre outros meios. Na tentativa de se aproximar delas, parte da bibliografia especializada chama a atenção para o papel de código de comunicação e linguagem que as artes indígenas podem assumir – como Nancy Munn refere entre os Warlbiri e Lux Vidal entre os Xikrin. Outra parte da bibliografia sugere que formas e imagens potencializam a comunicação com ancestrais e sobrenaturais – como Howard Morphy aprende com os Yolngu e Lúcia van Velthem com os Wayana. Há quem enfatize que tais imagens e objetos não representam nada; eles têm agência e condensam intencionalidades – perspectiva de Alfred Gell. Mais recentemente, autores indígenas – a exemplo de Ailton Krenak e Jaider Esbell – destacam a transversalidade das artes indígenas, que não se restringem a uma esfera separada da vida social, e ressaltam sua capacidade de conectar seres visíveis e invisíveis, e de atuarem como agentes políticos em processos decoloniais.

    Trata-se, portanto, de um universo complexo, que permite múltiplas leituras e abordagens e que não pode ser plenamente compreendido, nem traduzido pelo sistema da arte e dos museus Ocidental. Ainda assim (ou por causa disso), as artes indígenas despertam fascínio e estranhamento entre não indígenas. Após as invasões coloniais, observam-se, de um lado, processos de adaptação e recriação de algumas dessas práticas e materialidades; de outro lado, pilhagens e apropriações pelas sociedades envolventes. Uma parcela dos repertórios e expressividades indígenas foi apropriada, seja como troféu do poderio colonial, seja como testemunho de modos de vida “primitivos” e objeto de estudo científico, como mercadoria a ser vendida ou, ainda, como inspiração para renovações estéticas modernas. E, ao circularem nas sociedades euroamericanas, as artes indígenas vão sendo constantemente reclassificadas.

    James Clifford desenvolveu um modelo que situa os objetos em quatro “zonas”, com base no caráter utilitário ou estético que atribuímos a eles, e à proximidade maior ou menor em relação ao contexto de produção. No “zona” das “obras de arte autênticas”, encaixam-se itens valorizados por artistas, curadores e colecionadores; na “zona” dos “artefatos autênticos”, estão exemplares coletados por pesquisadores, abrigados em museus históricos e etnográficos; na “zona” das “obras de arte inautênticas”, entram as falsificações; por fim, na “zona” dos “artefatos inautênticos”, enquadram-se souvenirs turísticos e objetos utilitários produzidos em série. O interessante é que um mesmo objeto pode transitar de uma “zona” à outra, mudando, assim, de status e de valor. A criação do Musée du Quai Branly, em 2006, ilustra de modo eloquente a fragilidade e a permeabilidade de tais categorias, uma vez que peças de importantes coleções etnográficas francesas foram deslocadas para integrarem o museu de artes “primeiras”, com sua expografia estetizante e sua proposta artificadora.

    Com efeito, continua sendo um grande desafio o modo de colecionar e expor artes indígenas. A discussão abrange desde questões éticas, até técnicas de preservação – inclusive do que foi feito para ser efêmero. Passa por mal-entendidos ontológicos e por barreiras linguísticas. Abarca de estratégias de curadoria compartilhada a decisões sobre como identificar e contextualizar os elementos da exposição. Por acreditarmos que o debate só tem a ganhar, se for feito de maneira interdisciplinar e intercultural, convidamos antropólogos, artistas, curadores, historiadores da arte, historiadores e museolólogos, indígenas ou não, para submeterem contribuições ao dossiê em que pretendemos reunir reflexões sobre exposições e coleções de arte indígena realizadas no Brasil, do ponto de vista da curadoria, da expografia e da mediação.

    São bem vindas propostas que enfrentem perguntas tais quais: Como se dão os processos curatoriais, no tempo, no espaço e no método? Como se criam narrativas utilizando sequências de artefatos, tomando, por exemplo, as relações entre mito e imagem? A curadoria se alinha com vertente política ou teórica? Que alianças são necessárias para a montagem da coleção ou a organização da exposição? Quais critérios de inclusão e exclusão são acionados? Que tipo de diálogo existe entre a dimensão curatorial e a dimensão educativa? Quais os públicos atingidos e de que forma? Quais as diretrizes conceituais em cada projeto ou instituição? Que tipo de cruzamentos, confrontos ou convergências disciplinares e de pensamento são suscitados pelas exposições e coleções de arte indígena? Qual o papel da expografia nas dimensões narrativa, estética, cognitiva e outras? Quais são os elementos textuais que acompanham a exposição ou que documentam a coleção? Que tipo de contratos e de remuneração vigorou no projeto? Como se solucionaram impasses devidos a “equivocações”, para usar uma expressão de Eduardo Viveiros de Castro?

    Prazo de submissão: 31 de outubro de 2023.

    Organização:  Ilana Seltzer Goldstein (Universidade Federal de São Paulo) e Aristoteles Barcelos Neto (Sainsbury Research Unit for the Arts of Africa, Oceania and the Americas, University of East Anglia).

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