Banner Portal
Cultura vs. estado: relações de poder na educação escolar indígena
PDF

Palavras-chave

Poder. Educação Escolar. Laklãnõ-Xokleng.

Como Citar

GUEROLA, Carlos Maroto. Cultura vs. estado: relações de poder na educação escolar indígena. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, SP, v. 57, n. 3, p. 1443–1466, 2018. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/tla/article/view/8653616. Acesso em: 22 jun. 2024.

Resumo

Com base numa pesquisa etnográfica, busca-se neste trabalho analisar estratégias de construção de sentido que comunidades indígenas (particularmente a comunidade Laklãnõ-Xokleng da TI Ibirama Laklãnõ) e o Estado brasileiro (particularmente o Estado de Santa Catarina) empregam no intuito de perpetuar ou transformar as relações de poder estabelecidas entre eles, particularmente no contexto da educação escolar. Por meio da análise de uma interação ocorrida, no âmbito de um programa de formação continuada, entre professores, lideranças e anciões indígenas e uma gestora da instituição diretamente responsável pelas escolas Laklãnõ-Xokleng na rede estadual de educação em que se inserem, são elencadas e ilustradas estratégias que dizem respeito aos seguintes fenômenos: 1) o sobrecarregamento de palavras e formas que diferentes instituições e os seus centros de transmissão de poder fazem estrategicamente com as suas próprias intenções no intuito de espoliar as “possibilidades intencionais da língua” (BAKHTIN, 2002, p. 97); 2) a remissão por esses centros de transmissão de poder a gêneros do discurso específicos para determinarem ou satisfazerem regras e exigências “complexas e pesadas” (FOUCAULT, 2004b, p. 13) para a enunciação de certos discursos de forma eficaz e coercitiva; e 3) a consciência da própria capacidade de transformação de seres humanos que, exercendo seu poder, fazem culturas (FREIRE, 1967) ou, pelo contrário, a abdicação dessa consciência por parte de seres humanos que incorporam estados em processos de acomodação/ajustamento por meio dos quais acabam se sentindo (ou se fingindo) impotentes e paralisados e negando a natureza performática das instituições (BUTLER, 2010). As estratégias de construção de sentido identificadas, em virtude da sua natureza linguística, ideológica e política, assim como em virtude da intencionalidade e sistematicidade que as permeiam, constituem em si mesmas políticas linguísticas, em estreita ligação com políticas de identidade.
PDF

Referências

BAKHTIN, M. (1997). Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes.

BAKHTIN, M. (2002). Questões de Literatura e de Estética: a teoria do romance. São Paulo: Hucitec.

BAKHTIN, M. (2006). Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Hucitec.

BRASIL. (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 05 out. 2018.

BRIGHENTI, C. A.; NÖTZOLD, A. L. V. (2010). Educação guarani e educação escolar: Desafios da experiência mbya e nhandeva. Cadernos do LEME, v. 2, n. 2, pp. 22-40.

BUTLER, J. (2010). Performative Agency. Journal of Cultural Economy, v. 3, n. 2, pp. 147-161.

CALVET, L.-J. (2007). As políticas linguísticas. São Paulo: Parábola Ed, IPOL.

CAVALCANTI, M. C. (1999). Estudos sobre educação bilíngue e escolarização em contextos de minorias linguísticas no Brasil. D.E.L.T.A., v. 15, n. Especial, pp. 385-417.

CLIFFORD, J.; MARCUS, G. E. (orgs.). (1986). Writing Culture: The Poetics and Politics of Ethnography. Berkeley/Los Angeles: University of California Press.

D’ANGELIS, W. D. R. (2012). Aprisionando sonhos: a educação escolar indígena no Brasil. Campinas: Curt Nimuendajú.

DAVIES, C. A. (1999). Reflexive Ethnography: A guide to researching selves and others. Londres/Nova Iorque: Routledge.

ERICKSON, F. (1990). Qualitative Methods. In: Linn, R.; Erickson, F. (orgs.). Quantitative Methods Qualitative Methods: A Project of the American Educational Research Association. Londres/Nova Iorque: Macmillan Publishing Company.

FOUCAULT, M. (2004a). A ética do cuidado de si como prática da liberdade. In: _______. Ditos & Escritos V - Ética, Sexualidade, Política. Rio de Janeiro: Forense Universitária. pp. 265-287.

FOUCAULT, M. (2004b). A ordem do discurso. [s.l.]: Sabotagem.

FOUCAULT, M. (1995). O sujeito e o poder. In: Rabinow, P.; Dreyfus, H. (orgs.). Michel Foucault: Uma trajetória filosófica - para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro: Universitária. pp. 231-252.

FOUCAULT, M. (1979). Microfísica do poder. Organização, introdução e revisão técnica de Roberto Machado. [s.l.]: Sabotagem.

FREIRE, P. (1989). A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados/Cortez.

FREIRE, P. (1967). Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

GUEROLA, C. M. (2017a). “Os alunos teriam que estudar para poder comprar comida”: A escola guarani como necessidade, obrigação e direito. Revista Brasileira de Educação, v. 22, n. 71, pp. 1-25.

GUEROLA, C. M. (2017b). “Se nós não fosse guerreiro, nós não existia mais aqui”: Ensino-aprendizagem de línguas para fortalecimento da luta guarani, kaingang e laklãnõ-xokleng. Tese de doutorado em Linguística. Centro de Comunicação e Expressão, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

GUEROLA, C. M. (2015a). A disciplinarização letrada das línguas indígenas no Sul do Brasil: uma abordagem discursiva. Estudos Linguísticos, v. 44, n. 2, pp. 559-573.

GUEROLA, C. M. (2015b). Proporcionar aos índios a valorização das suas línguas?! Problemas discursivos na diferenciação da escola indígena. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 15, n. 3, pp. 779-807.

GUEROLA, C. M. (2014). A reconstrução intercultural dos direitos humanos linguísticos escolares guarani: horizontes sociais e letramento. Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 53, n. 1, pp. 225-241.

GUEROLA, C. M. (2012). “Às vezes tem pessoas que não querem nem ouvir, que não dão direito de falar pro indígena”: a reconstrução intercultural dos direitos humanos linguísticos na escola Itaty da aldeia guarani do Morro dos Cavalos. Dissertação de Mestrado em Linguística. Centro de Comunicação e Expressão, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

GIDDENS, A. (1984). The Constitution of Society: Outline of the Theory of Structuration. Berkeley, CA: University of California Press.

HARVEY, D. (1996). Justice, Nature and the Geography of Difference. Oxford: Blackwell.

HEATH, S. B.; STREET, B. (2008). On ethnography: approaches to language and literacy research. Nova Iorque: Teachers College Press.

HYMES, D. (1996). Ethnography, Linguistics, Narrative Inequality: Toward an Understanding of Voice. Bristol/Londres: Taylor & Francis.

KOCH, I. G. V. (2011). Desvendando os segredos do texto. São Paulo: Cortez.

LAVINA, R. (1994). Os Xokleng de Santa Catarina: uma etnohistória e sugestões para os arqueólogos. Dissertação de Mestrado em História. Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, São Leopoldo/RS.

LOCH, S. (2004). Arquiteturas xoklengs contemporâneas: uma introdução à antropologia do espaço na Terra Indígena de Ibirama. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis.

MAGALHÃES, E. D. (org.). (2005). Legislação Indigenista Brasileira e normas correlatas. Brasília: FUNAI/CGDOC.

MAHER, T. J. M. (1998). Sendo índio em português. In: Signorini, I. (org.). Língua(gem) e identidade: elementos para uma discussão no campo aplicado. Campinas, SP: Mercado das Letras. pp. 115-138.

MAKONI, S.; PENNYCOOK, A. (2006). Disinventing and Reconstituting Languages. In: _______ (orgs.). Disinventing and Reconstituting Languages. Clevedon: Multilingual Matters. pp. 1-41.

NOELLI, F. S. (2000). A ocupação humana na região sul do Brasil: Arqueologia, debates e perspectivas 1872-2000. Revista USP, n. 44, pp. 218-269.

SANTOS, S. C. D. (1997). Os indios Xokleng: memoria visual. Florianópolis/Itajaí: Ed. da UFSC/Ed. da UNIVALI.

SANTOS, S. C. D. (1987). A barragem de Ibirama e os índios. Geosul, v. 2, n. 4, pp. 42-47.

SANTOS, S. C. D. (1978). O homem índio sobrevivente do sul; antropologia visual. Florianópolis/Porto Alegre/Caxias do Sul: Universidade Federal de Santa Catarina/Departamento de Assuntos Culturais - MEC/Associação Nacional de Apoio ao Índio/Universidade de Caxias do Sul/Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes/Editora Garatuja.

SOUSA SANTOS, B. D. (2010). Descolonizar el saber, reinventar el poder. Montevideu: Trilce.

SOUZA, L. M. T. M. D. (2009). Relatório sobre Educação Indígena Diferenciada, Intercultural e Bilíngue no Brasil. In: López, L. E.; Hanemann, U. (orgs.). Alfabetización y multiculturalidad: Miradas desde América Latina. Guatemala: UIL-UNESCO, PACE-GTZ. pp. 99-128.

VAN MAANEN, J. (1988). Tales of the field. On writing ethnography. Chicago: The University of Chicago Press.

WIIK, F. B. (2010). “Somos índios crentes”: dialéticas do contato, alteridade e mediação cultural entre os Xokleng (Jê) de Santa Catarina. Tellus, v. 10, n. 19, pp. 11-51.

WIIK, F. B. . (1998). Doenças e Transformação Sóciocultural entre os Índios Xokleng: epidemias, corporalidade e práxis entre os índios Xokleng do sul do Brasil. Revista de Divulgação Cultural, v. 20, n. 64, pp. 59-67.

WITTMANN, L. T. (2005). Atos do contato: Histórias do povo indígena Xokleng no Vale do Itajaí/SC (1850-1926). Dissertação de Mestrado em História. UNICAMP, Campinas/SP.

O periódico Trabalhos em Linguística Aplicada utiliza a licença do Creative Commons (CC), preservando assim, a integridade dos artigos em ambiente de acesso aberto, em que:

  • A publicação se reserva o direito de efetuar, nos originais, alterações de ordem normativa, ortográfica e gramatical, com vistas a manter o padrão culto da língua, respeitando, porém, o estilo dos autores;
  • Os originais não serão devolvidos aos autores;
  • Os autores mantêm os direitos totais sobre seus trabalhos publicados na Trabalhos de Linguística Aplicada, ficando sua reimpressão total ou parcial, depósito ou republicação sujeita à indicação de primeira publicação na revista, por meio da licença CC-BY;
  • Deve ser consignada a fonte de publicação original;
  • As opiniões emitidas pelos autores dos artigos são de sua exclusiva responsabilidade.

Downloads

Não há dados estatísticos.