Letramento acadêmico indígena e quilombola: uma política linguística afirmativa voltada à interculturalidade crítica

Autores

  • Letícia Cao Ponso Universidade Federal de Rio Grande

Palavras-chave:

política linguística, letramento, interculturalidade, decolonialidade

Resumo

Este artigo busca refletir sobre um acompanhamento pedagógico intercultural crítico para o acolhimento, a integração e a permanência dos estudantes indígenas e quilombolas no ensino superior brasileiro. Mais especificamente, pretende-se construir o argumento de que as experiências universitárias desses povos tradicionais nos cursos de graduação e pós-graduação só se podem concluir satisfatoriamente se baseadas em políticas institucionais que incluam uma política linguística para falantes de línguas não-hegemônicas, no que se refere ao domínio da textualidade acadêmica em língua portuguesa. Recorre-se aos conceitos de “letramentos de re-existência”, “interculturalidade crítica” e “pedagogia decolonial” em busca de propor uma política linguística que contemple os letramentos decorrentes do contato entre línguas e culturas presentes na comunidade acadêmica – especialmente as indígenas - a partir das demandas e agenciamentos de seus próprios falantes.

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Biografia do Autor

Letícia Cao Ponso, Universidade Federal de Rio Grande

Doutora em Teoria e Análise Linguística pela Universidade Federal Fluminense, com estágio-sanduíche na Universidade Eduardo Mondlane - Moçambique (Bolsa Capes de Doutorado-sanduíche no Exterior), com pesquisa sobre identidades, práticas e representações linguísticas acerca do português em contato com as línguas autóctones moçambicanas no contexto pós-colonial. Mestre em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Seu atual projeto de pesquisa examina as condições de letramento acadêmico de estudantes indígenas e quilombolas no marco de uma Política Linguística Afirmativa nas universidades brasileiras. É pesquisadora do Grupo ALMA LINGUAE, que estuda os processos de variação e mudança das línguas minoritárias, sua classificação, uso, manutenção e perda nas diversas situações de contato linguístico e do Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas (NEABI - FURG). Seus centros de interesse estão direcionados para a área de ensino de Língua Portuguesa, Sociolinguística e Dialetologia, abrangendo línguas em contato, plurilinguismo, políticas linguísticas e identidade. Atualmente é Professora Adjunta da Universidade Federal do Rio Grande.

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Publicado

2018-10-29

Como Citar

PONSO, L. C. Letramento acadêmico indígena e quilombola: uma política linguística afirmativa voltada à interculturalidade crítica. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, SP, v. 57, n. 3, p. 1512–1533, 2018. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/tla/article/view/8653744. Acesso em: 2 dez. 2021.