O monumento do “guerreiro guarani”
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Palavras-chave

Chafariz
Conceição do Mato Dentro
Indígena
Independência

Como Citar

SILVA, F. L. da. O monumento do “guerreiro guarani”: o chafariz de Conceição de Mato Dentro e a memória da independência em Minas Gerais. MODOS: Revista de História da Arte, Campinas, SP, v. 6, n. 3, p. 216–243, 2022. DOI: 10.20396/modos.v6i3.8668874. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/mod/article/view/8668874. Acesso em: 29 fev. 2024.

Resumo

No dia 22 de abril de 1825, no quarto ano da Independência e do Império, o povoado de Conceição do Serro (Mato Dentro), Minas Gerais, inaugurou o chafariz coroado pela escultura de um indígena – “gênio do Brasil”. Tal monumento da água transformava o aspecto da praça pública daquele povoado ao reforçar e inserir no imaginário local a sua adesão ao jovem Império que se conformava a partir da Independência política em 1822. A presença do indígena alegorizado em gestos triunfantes e que enaltecia determinadas virtudes cívicas coexistia com as tensões e a violência imposta aos nativos que habitavam os campos de cerrado que davam nome àquele lugar. Entre os festejos da Independência e da adesão a d. Pedro enquanto monarca legítimo, os povos originários representavam um desafio a ser superado para a expansão do projeto “civilizador” imposto sobre aqueles que deveriam se submeter ao imperador. É preciso, portanto, perscrutarmos com maior cuidado aquela figura do indígena idealizado, alçado à símbolo da nação, feito de pedra adornada de plumas, brincos, colar e manto; um nativo imaginado tal qual o fora o Brasil que se conformava naquele momento, em meio a tantas guerras e disputas simbólicas sobre a antiga colônia que se fazia independente.

https://doi.org/10.20396/modos.v6i3.8668874
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