(In) Segurança Alimentar: experiência de grupos focais com populações rurais do Estado de São Paulo

Maria de Fátima Archanjo Sampaio, Anne Walleser Kepple, Ana Maria Segall-Corrêa, Julieta Teresa Aier de Oliveira, Giseli Panigassi, Lucia Kurdian Maranha, Letícia Marin-Leon, Sonia Maria Pessoa Pereira Bergamasco, Rafael Perez-Escamilla

Resumo


O presente trabalho apresenta a experiência de grupos focais com participantes oriundos de populações rurais do Estado de São Paulo, que possibilitou analisar e elucidar a compreensão existente acerca dos conceitos utilizados pela Escala Norte-Americana para Medida de Segurança Alimentar (USDA Core Food Security Module, hoje denominada Household Food Insecurity Access Scale - HFIAS), previamente adaptada e validada para populações brasileiras urbanas. Essa fase qualitativa antecedeu e forneceu subsídios para realização da fase quantitativa do estudo de validação dessa escala para populações rurais. Foram realizados dois grupos focais, compostos, cada um, por 12 participantes, escolhidos e convidados para representar diferentes categorias da população rural paulista, incluindo: assentados, agricultores familiares tradicionais, trabalhadores assalariados e quilombolas. Os conceitos e palavras-chave investigados foram: “Segurança alimentar”; “Qualidade da alimentação”; “Alimentação saudável”; “Alimentação variada”; “Alimentação saudável e variada”; “Alimento suficiente”; “Condições para ter alimento suficiente: trocas, reserva, estoque, produção de alimentos para consumo e compra de alimentos”; “Dinheiro suficiente”; “Ficar sem nenhum dinheiro”; “Insegurança alimentar” e “Fome”. Os participantes expressaram uma compreensão abrangente sobre segurança alimentar, englobando diferentes aspectos do tema. A análise dos depoimentos desses grupos focais apontou para o reconhecimento no conceito de segurança alimentar do direito humano à alimentação, o que envolve também questões como acesso ao trabalho, saúde, educação, moradia e renda. Na compreensão do termo “Qualidade da alimentação” ficou evidente a preocupação com o consumo de produtos sem agrotóxicos, tendo sido observadas, em menor escala, referências às questões de preço e aparência mais recorrentes nos grupos focais com populações urbanas. Os resultados conduziram a modificações no questionário e contribuíram para o desenvolvimento da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), válida para diagnosticar essa condição e monitorar o impacto de políticas voltadas para o combate à fome no país. O processo de validação concluído permitiu o uso da escala brasileira em projetos de pesquisa sobre segurança alimentar que atenderam a um edital do CNPq, ainda em 2003, e posteriormente, essa escala foi incorporada ao suplemento de segurança alimentar da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD-2004), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Texto completo:

PDF

Referências


Bickel G et al. Guide to measuring Household Food Security in the United States, revised 2000. USDA, Food and Nutrition Service, August 2000. Disponível em: www.ers.usda.gov/publications/fanrr11-1/fanrr11_1b.pdf [Acesso em 26 jun. 2006].

Bickel G & Andrews M. A evolução do Programa de Cupom Alimentação e a mensuração da fome nos Estados Unidos. In: Takagi M, et al. (orgs). Combate à fome e à pobreza rural. São Paulo: Instituto Cidadania; 2002. p.34-74.

USDA, Food and Consumer Service, Office of Analysis and Evaluation. Food Security Measurement and Research Conference: Papers and Proceedings. Alexandria, Virginia, 1995.

Basiotis P. Validity of self-reported food sufficiency status item in the U. S. Department of Agriculture´s food consumption surveys. American Council on Consumer Interests 38th Annual Conference: The Proceedings (V.A. Haldeman, ed.). Columbia, MO, 1992. APUD: Bickel G & Andrews M. A evolução do Programa de Cupom Alimentação e a mensuração da fome nos Estados Unidos, 33-74. In: Takagi, M., Graziano da Silva, J. Belik, W. (Orgs). Combate à fome e à pobreza rural. São Paulo: Instituto Cidadania; 2002.

Wehler CA et al. The Community Childhood Hunger Identification Project: a model of domestic hunger-demonstration project in Seattle, Washington. J. Nutr. Educ. 1992;24:29S-35S.

FRAC. Community Childhood Hunger Identification Project. A survey of childhood hunger in the United States. Food Research and Action Center, Washington, D.C. March 1991.

Radimer KL et al. Development of indicators to assess hunger. Journal of Nutrition. 1990; Suppl:1544S-1548S.

Radimer KL et al. Understanding hunger and developing indicators to assess it in women and children. J. Nutr. Educ. 1992;24:36S-45S.

Campbell CC. Food Insecurity: a nutritional outcome or a predictor variable? Journal of Nutrition. 1991;121:408-15.

CONSEA. II Conferência nacional de segurança alimentar e nutricional. Relatório Final. Pernambuco; 2004.

Pérez-Escamilla R. Experiência internacional com a escala de percepção de insegurança alimentar. Cadernos de Estudos. Desenvolvimento Social em Debate, 2005;(2):14-27.

Segall-Corrêa AM et al. (In) segurança alimentar no Brasil: Validação de metodologia para acompanhamento e avaliação da segurança alimentar de famílias brasileiras. URBANO/RURAL. Campinas; 2004. [Relatório Técnico]. Disponível em: http://www.opas.org.br/publicac.cfm.

Sampaio MFA et al. Validation of the USDA food insecurity module: rural areas in the state of São Paulo, Brazil: qualitative phase. The Faseb Journal. 2005;19(5):A1349.

Scrimshaw SCM & Hurtado E. Focus groups. In: Rapid assessment procedures for nutrition and primary health care: anthropological approaches to improving programme effectiveness. UCLA Latin American Center Publications, University of California, Los Angeles [Reference Series, 11], p.15-19. Tokyo: UNICEF, 1987.

Morgan DL. Focus groups in qualitative research. Londres: Sage; 1988.

Morgan DL. Focus groups in qualitative research. 2. ed. Londres: Sage; 1997.

Kreuger RA. Focus groups: a practical guide for applied research. Londres: Sage; 1988.

Westphal MF et al. Grupos focais: experiências precursoras em programas educativos em saúde no Brasil. Boletim da Oficina Panamericana. 1996;120(6).

Kitzinger J. Introducing focus groups. British Medical Journal. 1995;311:299-302.

Gibbs A. Focus groups. Social Research Update. University of Surrey, Guildford, England: Winter; 1997. Disponível em: www.soc.survey.ac.uk/sru/SRU19.html

Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. São Paulo – Rio de Janeiro: Hucitec-Abrasco; 1996.

Afonso MLM. Oficinas em dinâmica de grupo: um método de trabalho estruturado com pequenos grupos [apostilado]. São Paulo: Curso “Dinâmica de Grupo”; 1997.

Freitas MCS. Uma abordagem fenomenológica da fome. Revista de Nutrição. 2002;15(1):53-69.

Canesqui AM. Mudanças e permanências da prática alimentar cotidiana de famílias de trabalhadores. In: Canesqui AM & Garcia RWD (orgs). Antropologia e Nutrição: um diálogo possível. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 2005. p.167-210.

Santos SMC et al. Mulher, mãe e provedora: a experiência das mulheres como beneficiárias de programas de transferência de renda no interior da Bahia. In: III Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (ABRASCO), 2005, Florianópolis. Anais do III Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde. Florianópolis: Zanda Multimeios da Informação, 2005. v. 10.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa nacional por amostra de domicílios. Síntese de indicadores 2004. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/lojavirtual/fichatecnica.php?codigoproduto=8712 [Acesso em 28 jun. 2006].




DOI: https://doi.org/10.20396/san.v13i1.1845

Métricas do Artigo

Carregando métricas...

Metrics powered by PLOS ALM

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Direitos autorais 2015 Revista Segurança Alimentar e Nutricional

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma licença Creative Commons Atribuição - NãoComercial 4.0 Internacional.

Segur. Aliment. Nutr., Campinas, SP, Brasil, e-ISSN 2316-297X