Comida de quilombo e a desnutrição infantil na Amazônia Paraense

uma análise com base no mapeamento da insegurança alimentar e nutricional

Autores

DOI:

https://doi.org/10.20396/san.v29i00.8670218

Palavras-chave:

Desnutrição crônica, Criança quilombola, Populações tradicionais, Segurança alimentar e nutricional, Programa bolsa família

Resumo

As comunidades quilombolas enfrentam historicamente situações de vulnerabilidade, racismo e violência, isso têm refletido na organização social desses grupos, a ponto de configurar um estado grave de insegurança alimentar e nutricional. Este artigo analisa os níveis de vulnerabilidade em desnutrição de crianças quilombolas e não quilombolas no Estado do Pará, com idade abaixo de cinco anos, incluídas no Programa Bolsa Família. Trata-se de uma pesquisa empírica, quantitativa, com dados provenientes do Mapeamento da Insegurança Alimentar e Nutricional (Mapa InSan 2018). Os resultados indicam que a desnutrição é elevada segundo estatura-por-idade (36,1%) e peso-por-idade (8,4%), o que sugere que uma criança que não pertence a nenhuma comunidade tradicional tem 85% mais chances de viver em melhores condições do que uma criança quilombola no estado do Pará. A prevalência da insegurança alimentar e nutricional é ainda maior nos territórios quilombolas, o que reforça a vulnerabilidade dessa população.

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Biografia do Autor

Nadia Alinne Fernandes Corrêa, Universidade Federal do Pará

Doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal do Pará.

Hilton Pereira da Silva, Universidade Federal do Pará

Doutorado em Antropologia pela Universidade Estadual de Ohio. Docente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia. Docente do Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Sociedade na Amazônia na Universidade Federal do Pará.

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Publicado

2022-12-03

Como Citar

CORRÊA, N. A. F.; SILVA, H. P. da. Comida de quilombo e a desnutrição infantil na Amazônia Paraense: uma análise com base no mapeamento da insegurança alimentar e nutricional. Segurança Alimentar e Nutricional, Campinas, SP, v. 29, n. 00, p. e022020, 2022. DOI: 10.20396/san.v29i00.8670218. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/san/article/view/8670218. Acesso em: 1 fev. 2023.

Edição

Seção

Artigos Originais

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