Desregulamentando dicotomias: transletramentos, sobrevivências, nascimentos

Autores

  • Adriana Carvalho Lopes Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada/UFRJ
  • Daniel Nascimento e Silva Universidade Federal de Santa Catarina Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada/UFRJ
  • Adriana Facina Museu Nacional/UFRJ
  • Raphael Calazans Universidade Federal do Rio de Janeiro
  • Janaína Tavares Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

Palavras-chave:

transletramentos, sobrevivência, etnografia linguística.

Resumo

Este artigo propõe a noção etnográfica e situada de transletramentos. Argumentamos que transletramentos são práticas de uso social da escrita que replicam e deslocam experiências de socialização mediadas por essa tecnologia e adquiridas em diversas agências de letramento – portos de passagem como a escola, a igreja, a família, o grupo musical, os coletivos políticos. Baseados em evidência empírica de nossa pesquisa sobre letramentos, produção cultural e regimes metapragmáticos no Complexo do Alemão/RJ e no diálogo com Autor 4 e Autora 5 , jovens que transitam por diferentes espaço-tempos sociais, propomos ainda que transletramentos são metáforas importantes para entender a questão da sobrevivência. Ao extrapolar circunscrições como vida e morte, escola e sociedade, estado democrático e estado penal, a sobrevivência nos permite trazer à tona reflexões sobre as estratégias que os sujeitos subalternizados encontram para escrever as suas próprias histórias.

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Biografia do Autor

Daniel Nascimento e Silva, Universidade Federal de Santa Catarina Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada/UFRJ

possui licenciatura em Letras - Português/Inglês pela Universidade Estadual do Ceará (2002), mestrado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (2005) e doutorado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas (2010). Realizou estágio de doutorado sanduíche (2007-2008) e pós-doutorado (2015-2016) no núcleo de Antropologia Linguística do Departamento de Antropologia da University of California at Berkeley. Publicou, em 2012, o livro "Pragmática da Violência: o Nordeste na Mídia Brasileira" (Rio de Janeiro: 7 Letras) e em 2014 organizou, junto com Dina Ferreira e Claudiana Alencar, o livro "Nova Pragmática: Modos de Fazer" (São Paulo: Cortez). Desenvolve estudos sobre a relação entre significação e violência e sobre letramentos, circulação de discursos e regimes de comodificação linguística no campo das vertentes interacionistas e sociais dos estudos da linguagem. Tem experiência com formação de professores e investiga as relações entre educação e desenvolvimento social e humano.

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Publicado

2018-01-04

Como Citar

LOPES, A. C.; SILVA, D. N. e; FACINA, A.; CALAZANS, R.; TAVARES, J. Desregulamentando dicotomias: transletramentos, sobrevivências, nascimentos. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, SP, v. 56, n. 3, p. 753–780, 2018. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/tla/article/view/8650275. Acesso em: 31 jan. 2023.

Edição

Seção

Artigos