Sincretismo religioso como estratégia de sobrevivência transnacional e translacional: divindades africanas e santos católicos em tradução

Autores

  • Tito Lívio Cruz Romão Universidade Federal do Ceará

Palavras-chave:

Sincretismo religioso. Estratégia de sobrevivência. Tradução.

Resumo

A chegada dos colonizadores portugueses na então Pindorama, que mais tarde se chamaria Brasil, representou a eclosão de severos atos de violência contra diversos grupos populacionais, notadamente os muitos povos indígenas habitantes naturais desta terra e as dezenas de etnias africanas sequestradas para o Brasil como escravos e destituídas de seus direitos fundamentais. Embora estivessem misturados em grupos étnicos variados, os africanos, apesar dos sofrimentos e das sevícias de que eram vítimas, buscaram – de forma consciente ou inconsciente – soluções práticas para resolverem problemas cotidianos, como o exercício de seus rituais religiosos. Ao longo do tempo, foram familiarizados com o contexto católico e assim puderam inferir transferências, adaptações e recriações culturais e religiosas. Essa forma de traduzir dois mundos religiosos distintos ajudou-os a manter vivas suas tradições religiosas ancestrais, ainda que mescladas com o sistema hagiológico católico. Neste trabalho, nosso foco estará voltado para as noções de religiões afro-brasileiras propostas por Verger (1997) e Bastide (2001), e de religiões afro-cubanas por Aróstegui (1990). Por entendermos que os africanos realizaram um processo translatório em que o sincretismo atua como estratégia de sobrevivência transnacional e translacional, recorremos a algumas noções propostas por Bhabha (1994). Para exemplificarmos o sentido prático do sincretismo religioso tanto como processo quanto ato comunicativo e tradutório que se utiliza de diferentes fatores extratextuais e intratextuais, recorremos parcialmente ao arcabouço teórico de Nord (2016). Por fim, trazemos exemplos de traduções de romances de Jorge Amado em alemão, para mostrarmos a complexidade da tradução de termos religiosos afro-brasileiros.

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Biografia do Autor

Tito Lívio Cruz Romão, Universidade Federal do Ceará

Professor de Língua, Literatura e Cultura Alemã do Departamento de Letras Estrangeiras da UFC e membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Letras (Literatura Comparada) da UFC. Tradutor Público e Intérprete Comercial de língua alemã registrado na Junta Comercial do Estado do Ceará.

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Publicado

2018-03-28

Como Citar

ROMÃO, T. L. C. Sincretismo religioso como estratégia de sobrevivência transnacional e translacional: divindades africanas e santos católicos em tradução. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, SP, v. 57, n. 1, p. 353–381, 2018. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/tla/article/view/8651758. Acesso em: 2 dez. 2022.