Rastros de uma heterotopia urbana: o caso do Parque Ibirapuera, SP

Autores

  • Ana Paula Nunes Chaves Universidade do Estado de Santa Catarina
  • Julio Groppa Aquino Universidade de São Paulo

DOI:

https://doi.org/10.20396/etd.v18i4.8646408

Palavras-chave:

Espaço. Espacialidade. Heterotopia. Michel Foucault. Parque Ibirapuera.

Resumo

O presente artigo baseia-se nas reflexões de Michel Foucault acerca da temática da espacialidade com vistas a formular um panorama teórico sobre a noção de espaço e, especificamente, sobre os espaços heterotópicos. Acerca destes, Foucault propôs uma abordagem singular ao colocar em destaque espaços outros, os quais denotariam seu caráter marginal, conflitante e subversivo em relação à ordem instituída. A título de exploração de tal hipótese geral, apresentam-se os resultados de uma investigação acerca do Parque Ibirapuera, ícone urbano da cidade de São Paulo, segundo duas frentes de trabalho complementares: documentos oficiais sobre o Parque e discursos jornalísticos veiculados a seu respeito pelo jornal O Estado de S. Paulo de 1954 a 2014. Os dados analisados permitiram identificar um modo de governo que traslada a ortopedia social para o controle do espaço e das condutas, por meio do isolamento do desvio e da modulação econômica por ele gerada; detectou-se também que, mediante tal processamento, despontam rastros heterotópicos como respostas imprevistas às estratégias de governamento, ou seja, como imaginações criativas que, posicionando-se no desvio e em outros modos de existência possíveis, desafiam os mecanismos de controle vigentes. A argumentação final encaminha-se no sentido da defesa de novas perspectivas no que se refere ao trabalho analítico devotado às espacialidades urbanas, em favor de uma compreensão alargada dos vínculos que se estabelecem entre espaço, governo, resistência e (re)criação espacial.

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Biografia do Autor

Ana Paula Nunes Chaves, Universidade do Estado de Santa Catarina

Professora Adjunta do Departamento de Geografia da Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC, com mestrado (2010) em Geografia na linha de pesquisa Geografia em Processos Educativos, na Universidade Federal de Santa Catarina UFSC, e doutorado (2015) em Educação na linha de pesquisa Filosofia da Educação, na Universidade de São Paulo USP. Pesquisadora do grupo Ensino de Geografia, formação docente e diferentes linguagens.

Julio Groppa Aquino, Universidade de São Paulo

Professor titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado em Psicologia Escolar pelo IPUSP, bem como pós-doutorado pela Universidade de Barcelona e livre-docência pela FEUSP. Pesquisador do CNPq e da FAPESP. Vem desenvolvendo trabalhos de pesquisa voltados ao encontro do pensamento foucaultiano com a educação brasileira, bem como aos processos de governamentalização em curso na atualidade educacional. É autor, coautor e organizador de um conjunto de artigos, livros e capítulos, com vistas a uma crítica sistemática das práticas educacionais em voga, tanto em sua versão formal quanto na não formal. Foi um dos ganhadores do prêmio Jabuti, categoria educação/pedagogia, com o livro Da autoridade pedagógica à amizade intelectual: uma plataforma para o éthos docente.

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Publicado

2016-11-17

Como Citar

CHAVES, A. P. N.; AQUINO, J. G. Rastros de uma heterotopia urbana: o caso do Parque Ibirapuera, SP. ETD - Educação Temática Digital, Campinas, SP, v. 18, n. 4, p. 802-819, 2016. DOI: 10.20396/etd.v18i4.8646408. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/etd/article/view/8646408. Acesso em: 31 out. 2020.