Raça e interseccionalidade na tradução

algumas considerações para uma ética no fazer tradutório

Autores

Palavras-chave:

Tradução ética, Textualidades Negras, Raça, Estudos da Tradução, Interseccionalidade

Resumo

A discussão realizada neste artigo está fundamentada na convicção de que a tradução de textualidades negras nos seus vários formatos exige atenção às especificidades dos contextos a serem traduzidos. Nesse sentido, para que não se reproduza a violência do apagamento a que essa população foi exposta, a tradução desses escritos deve ser feita de modo a buscar estratégias que não apaguem a cultura refletida no texto-fonte e levem à elaboração de traduções éticas. Por meio da análise da obra de Oyèronkẹ́ Oyěwùmí (1997) e recorrendo a leituras na área de estudos da tradução e estudos de raça, busca-se aqui evidenciar a necessidade da realização de pesquisas e leituras sobre raça em momentos anteriores à atividade tradutória concreta, como parte da formação de futuras tradutoras. No Brasil, a invisibilização da população negra, a falta de tradutoras negras, o racismo e a colonização do pensamento devem ser superados para que cada vez mais a mediação realizada pela tradução reforce a voz dos segundos textos, denominação de Mbembe (2014) para os escritos que se contrapõem à versão ocidental sobre o negro (primeiros textos). Espera-se, portanto, contribuir para a reflexão sobre o importante e ativo papel que tradutoras de textualidades negras têm: o de cuidar para que seu trabalho não suprima a força da cultura e intelectualidade negra, negando-se a perpetuar o que Carneiro denominou como epistemicídio (CARNEIRO, 2011).

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Biografia do Autor

Gardênia Nogueira Lima, Universidade de Brasília

Mestra em Estudos da Tradução pela Universidade de Brasília (UnB). Especialista em História e cultura Afro-brasileira e Africana pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Brasil.

Renisia Cristina Garcia Filice, Universidade de Brasília

Doutorado em Educação pela Universidade de Brasília. Professora Associada da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, Brasil.

Alessandra Ramos de Oliveira Harden, Universidade de Brasília

Doutora em Estudos Hispanicos e Lusofonos pela University College Dublin, Irlanda. Professora Titular da Universidade de Brasília, Brasil.

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Publicado

2022-06-29

Como Citar

LIMA, G. N.; FILICE, R. C. G. .; HARDEN, A. R. de O. Raça e interseccionalidade na tradução: algumas considerações para uma ética no fazer tradutório. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, SP, v. 61, n. 1, p. 197–209, 2022. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/tla/article/view/8661403. Acesso em: 2 out. 2022.