“Mitos”, “verdades” e o papel da Linguística Aplicada na contemporaneidade

Autores

Palavras-chave:

Pós-moderno, Pós-verdade, Análise de narrativa, Epistemologia, Metanarrativa

Resumo

Esse artigo lança um olhar crítico sobre o que o fenômeno do chamado discurso da “pós-verdade” significa para os fundamentos epistemológicos da pesquisa em Linguística Aplicada, especialmente estudos embasados no que tem sido chamado a visão “pós-moderna” da vida social. A partir de uma perspectiva de narrativa enquanto performance, proponho que a disseminação da pesquisa pode ser vista como uma prática metanarrativa e que a validade e a solidez do conhecimento são, portanto, construídas durante eventos narrativos ‒ encruzilhadas nas quais estas metanarrativas são interrogadas por pares, participantes, editores e assim por diante. Sobretudo, argumento que a narrativa comovente (tanto aquelas contadas por participantes da pesquisa, quanto as metanarrativas costuradas pelo pesquisador) podem ser catalisadoras na identificação de pontos de articulação entre os alegados polos de emoção e razão a fim de avançar as questões sociais no cerne da Linguística Aplicada ‒ questões que podem ser marginalizadas ou deslegitimadas por aquilo denominado discurso da “pós-verdade”. Alinhado com o conceito latouriano de redes ‒ as quais fundamentalmente moldam a construção de conhecimento ‒ sugiro ainda que as relações de poder com as quais se encontram entrelaçadas precisam ser interrogadas mais a fundo para que tais narrativas alcancem um público mais abrangente e, potencialmente, acarretem a transformação social.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Naomi Orton, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Doutora em Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro

Referências

ARAÚJO, E. P. (in press). Cada luto, uma luta: narrativas, interação e resistência de mães contra a violência policial. Tese de Doutorado em Estudos da Linguagem. Departamento de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

ARAÚJO, E. P.; BIAR, L.; BASTOS, L. C. (2021). Engagement in Social Movements and the Fight for Justice: A Study on the Narratives of Black Mothers. Trabalhos em Linguística Aplicada. v. 59, n. 3. p. 1688-1709.

AUSTIN, J. L. (1962). How to do things with words. Oxford: Clarendon Press.

BAKHTIN. M. (1979). Estética da Criação Verbal. Translation by Maria Galvão Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

BAUMAN, R. (1977). Verbal art as performance. Illinois: Waveland Press.

BAUMAN, R. (1986). Story, performance and event: contextual studies of oral narrative. Cambridge: Cambridge University Press.

BAUMAN, R.; BRIGGS, C. L. (1990). Poetics and Performance as Critical Perspectives on Language and Social Life. Annual Review of Anthropology. v. 19, n. 1, p. 59-88.

BLOMMAERT, J. (2020). Political Discourse in Post-digital Societies. Trabalhos em Linguística Aplicada. v. 59, n. 1, p. 390-403.

BORGES, T. R. S. (2017). Pelo amadurecimento de um “sentir crítico”. Veredas, Revista de Estudos Linguísticos. v. 21, n. 2, p. 8-23.

BOURDIEU, P. (1984). Distinction: A social critique of the judgement of taste. Translation by Richard Nice. Cambridge: Harvard University Press, 1987.

BROWSE, S.; HATAVARA, M. (2019). “I can tell the difference between fiction and reality”: Cross-fictionality and Mind-style in political rhetoric. Narrative Inquiry. v. 29, n. 2, p. 333-351.

BRUNER, J. (1990). Acts of meaning: four lectures on mind and culture. Massachusetts: Harvard University Press.

BUCHOLTZ, M.; HALL, K. (2004). Language and Identity. In: Duranti, A. (ed.), A Companion to Linguistic Anthropology. Oxford: Basil Blackwell, p.369-394.

BUCHOLTZ, M.; HALL, K. (2005). Identity and Interaction: A Sociocultural Linguistic Approach. Discourse Studies, v. 7, n. 4-5, p. 585-614.

CLIFFORD, J. (1986). Partial truths. In: Clifford, J.; Marcus, G. (orgs.). Writing Culture: the poetics and the politics of Ethnography. Berkeley: University of California Press, p.1-26.

CLIFFORD, J.; MARCUS, G. (1986). Writing Culture: the poetics and the politics of Ethnography. Berkeley: University of California Press.

COELHO, M. C. (2019). Emotions and intellectual work. Horizontes Antropológicos. v. 25, n. 54, p. 273-297.

D’ANCONA, M. (2017). Post-truth. The new war on truth and how to fight back. Ebury Press.

DE FINA, A. (2021). Doing narrative analysis from a narratives-as-practices perspective. Narrative Inquiry. v. 31, n. 1, p. 49-71.

DE FINA, A.; GEORGAKOPOULOU, A. (2008). Introduction: Narrative Analysis in the shift from texts to practices. Text & Talk. v. 23, n. 1, p. 40-61.

DUNKER, C. (2018). Subjetividade em tempos de pós-verdade. In: Dunker, C.; Tezza, C.; Fuks, J.; Tiburi, M.; Safatle, V. Ética e pós-verdade. Porto Alegre: Dublinense, p. 9-41.

EVANS, A. (2017). The myth gap: what happens when evidence and arguments aren’t enough? Transworld.

FABRÍCIO, B. F. (2006). Linguística Aplicada como espaço de “desaprendizaegm”: redescrições em curso. In: Moita Lopes, L. P (org.), Por uma Linguística Aplicada Indisciplinar. São Paulo: Parábola. p.45-65.

FOUCAULT, M. (1969). The Archaeology of Knowledge. Translation by Alan Sheridan. New York: Pantheon Books, 1972.

GEE, J. P. (1999). An introduction to discourse analysis: Theory and method. New York: Routledge.

GERGEN, M. & GERGEN, K. (2006). Narratives in action. Narrative Inquiry. v. 16, n. 1, p. 112-121.

GEORGAKOPOULOU. A. (2006). Thinking big with small stories in narrative and identity analysis. Narrative Inquiry. v. 16, n. 1, p. 122-130.

GOFFMAN, E. (1956). The Presentation of Self in Everyday Life. University of Edinburgh Social Sciences Research Centre, Monograph No.2.

GOFFMAN, E. (1977). The Arrangement between the sexes. Theory and Society. v. 4, n. 3, p. 301-331.

GOFFMAN, E. (1979). Gender Advertisements. New York: Harper & Row.

GOFFMAN, E. (1983). The Interaction Order: American Sociological Association, 1982 Presidential Address. American Sociological Review. v. 48, n. 1, p. 1-17.

HATAVARA, M. & MILDORF, J. (2017). Fictionality, narrative modes and vicarious storytelling. Style. v. 51, n. 3, p. 392-408.

JÄRVINEN, M. (2003). Life histories and the perspective of the present. Narrative Inquiry. v. 14, n. 1, p. 45-68.

KACHRU, B. (1982). Models for Non-Native Teachers. In: Kachru, B. (ed.), The Other Tongue. English Across Cultures. Chicago: University of Illinois Press, 2nd ed., p.48-74.

KRAATILA, E. (2019). Conspicuous fabrications: Speculative fiction as a tool for confronting post-truth discourse. Narrative Inquiry. v. 29, n. 2, p. 418-433.

LABOV, W. (1972). The transformation of experience in narrative syntax. In: Labov, W. (ed.), Language in the inner city. Philadelphia: University of Philadelphia Press, p.354-396.

LABOV, W.; WALETSKY, J. (1967). Narrative Analysis: oral versions of personal experience. In: Helm, J. (org.), Essays on the verbal and visual arts. Seattle: University of Washington Press, p.12-44.

LANGELLIER, K. M. (2001). “You’re marked”: breast cancer, tattoo and the narrative performance of identity. In: Brockmeier, J.; Carbaugh, D. (orgs.), Narrative and Identity. Studies in autobiography, self and culture. Amsterdam: John Benjamins, p. 145-184.

LATOUR, B. (1989). Clothing truth. In: Lawson, H.; Appignanesi, L. (eds.), Dismantling Truth: Reality in the Post-Modern World. London: Weidenfeld & Nicolson, p.101-126.

LATOUR, B. (1999). Pandora's hope: essays on the reality of science studies. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press.

LATOUR, B. (2018). Down to earth: Politics in the New Climatic Regime. Cambridge: Polity Press.

LAZARUS, J. V.; RATZAN, S. C.; PALAYEW, A. et al. (2020). A global survey of potential acceptance of a COVID-19 vaccine. Nature Medicine. v. 27, p. 225-228.

LINDE, C. (1993). Life Stories: the creation of coherence. Oxford: Oxford University Press.

LYOTARD, J. (1979). The postmodern condition. Translation by Geoff Bennington and Brian Massumi. Manchester: Manchester University Press, 1984.

MASON, J. (2019). Making fiction out of fact: Attention and belief in the discourse of conspiracy. Narrative Inquiry. v. 29, n. 2, p. 293-312.

MCINTYRE, L. (2018). Post-truth. Cambridge: MIT Press.

MISHLER, E. (1990). Validation in inquiry-guided research: The role of exemplars in narrative studies. Harvard Educational Review, v. 60, n. 4, p. 415-442.

MISHLER, E. (2006). Narrative and Identity: the double arrow of time. In: De Fina, A.; Schiffrin, D.; Bamberg, M. (eds.), Studies in interactional sociolinguistics: v.23. Discourse and identity. Cambridge: Cambridge University Press, p. 30–47.

MIYAZAKI, H. (2004). The Method of Hope: Anthropology, Philosophy and Fijian Knowledge. Stanford: Stanford University Press.

MOITA LOPES, L.P. (2001). Práticas narrativas como espaço de construção das identidades sociais: uma abordagem socioconstructionista. In: Ribeiro, B. T.; Lima, C.; Dantas, M. T. (eds.), Narrativa, identidade e clínica. Rio de Janeiro: Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, p.55-72.

MOONEY, C. (2011). Once and For All: Climate Denial Is Not Postmodern. www.desmogblog.com. Available at: https://www.desmog.com/2011/02/28/once-and-all-climate-denial-not-postmodern/. Retrieved on 4th May 2021.

NURMINEN, M. (2019). Narrative warfare: the “careless” reinterpretation of literary canon in online antifeminism. Narrative Inquiry. v. 29, n. 2, p. 313-332.

PHILLIPSON, R. (1992). Linguistic Imperialism. Oxford: Oxford University Press.

RIESSMAN, C. K. (1993). Narrative Analysis. Newbury Park: Sage.

ROBERTS, S. (2020). Fireworks, Flags and Signs: Voices from the streets of post-Brexit Britain. Trabalhos em Linguística Aplicada. v. 59, n. 1, p. 491-506.

SCHOOFS, K. & VAN DE MIEROOP, D. (2019). Adjusting to new “truths”: The relation between the spatio-temporal context and identity work in repeated WWII-testimonies. Narrative Inquiry. v. 19, n. 2, p. 268-292.

SCHRIFFIN, D. (1984). How a story says what it means and does. Text & Talk, v. 4 n. 4, p. 313-346.

SANTOS, B. S. (2007). Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social. São Paulo: Boitempo.

SCRUTON, R. (2015). Fools, Frauds and Firebrands: Thinkers of the New Left. London: Bloomsbury.

SILVA, D. N. (2020). The Pragmatics of Chaos: parsing Bolsonaro’s undemocratic language. Trabalhos em Linguística Aplicada. v. 59, n. 1, p. 507-537.

YOUNG, K. G. (1987). Taleworlds and storyrealms: The phenomenology of narrative. Dordrecht: Martinus Nijhoff Publishers.

Downloads

Publicado

2021-09-14

Como Citar

ORTON, N. “Mitos”, “verdades” e o papel da Linguística Aplicada na contemporaneidade . Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, SP, v. 60, n. 2, p. 455–466, 2021. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/tla/article/view/8664375. Acesso em: 19 out. 2021.