Sentidos em movimento e trabalho do equívoco

uma leitura discursiva da proposta curricular nacional para a oferta de educação plurilíngue

Autores

Palavras-chave:

Educação plurilíngue , Discurso , Política linguística , Equívoco , Designação

Resumo

Historicamente, as diversas modalidades de ensino bilíngue no Brasil não têm figurado em documentações político-educacionais regulamentadoras. Entretanto, em 2020, a proposição das Diretrizes Curriculares Nacionais para a oferta de Educação Plurilíngue, no âmbito do Conselho Nacional de Educação, pode ser compreendida como um instrumento de política linguística que visa suprir essa falta. Realizamos, neste artigo, uma análise discursiva desse documento, a partir de duas categorias: a produção de um equívoco e o efeito de (in)determinação em processos de designação. Faz parte do processo discursivo que subjaz à textualidade do documento a mobilização da memória do silenciamento de outras línguas presentes no território brasileiro, no processo de institucionalização do português como língua nacional, e o confronto com essa memória e imagem de país monolíngue. Levando em conta esse imaginário e o gesto político do documento na tentativa de abarcar situações muito distintas de ensino bilíngue (português + outra língua), postulamos que um equívoco atravessa a textualidade do documento, no tocante ao significante “educação bilíngue” ou “educação plurilíngue”, produzindo um efeito de (in)determinação na materialidade linguística. Concluímos que o equívoco indicia a contradição ao propor a homogeneização de situações distintas de ensino bilíngue e sustenta o efeito de confronto entre a indeterminação linguística (a legislação proposta pretende abarcar a educação em toda e qualquer língua falada no território nacional, além das línguas estrangeiras de prestígio) e a determinação discursiva, que faz incidir o foco da educação bilíngue sobre as línguas estrangeiras de prestígio.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Marisa Grigoletto, Universidade de São Paulo

Doutorado em Lingüística pela Universidade Estadual de Campinas. Docente aposentada (professor associado) da Universidade de São Paulo, atuando desde 2014 como Professor colaborador Sênior, na mesma universidade.

Laura Fortes, Universidade Federal da Integração Latino-Americana

Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo. Professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana UNILA.

Referências

BAGHIN-SPINELLI, D. C. M. (2002). Ser professor (brasileiro) de língua inglesa: um estudo dos processos identitários nas práticas de ensino. 210 f. Tese (Doutorado). Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

BERGER, I. R.; REDEL, E. (Orgs.) (2020). Políticas de gestão do multilinguismo: práticas e debates. Campinas: Pontes Editores.

BRASIL. (2017). Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_20dez_site.pdf. Acesso em: 2 abr. 2021.

COSTA, M. A. M. (2008). Do sentido da contingência à contingência da formação: um estudo discursivo sobre a formação de professores de inglês. 272 f. Tese (Doutorado). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

FORTES, L. (2016). Entre o silêncio e o dizível: um estudo discursivo de sentidos de bilinguismo, educação bilíngue e currículo em escolas bilíngues português-inglês. 444 f. Tese (Doutorado). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

GIMENEZ, T. (2010). Apresentação. In: ROCHA, C. H.; TONELLI, J. R. A.; SILVA, K. A. da (Orgs). Língua estrangeira para crianças: ensino-aprendizagem e formação docente. Campinas: Pontes Editores, p. 13-25.

GIMENEZ, T. (2013). A ausência de políticas para o ensino da língua inglesa nos anos iniciais de escolarização no Brasil. In: NICOLAIDES, C.; SILVA, K. A. da; TÍLIO, R.; ROCHA, C. H. (Orgs.). Política e políticas linguísticas. Campinas: Pontes Editores, p. 199-218.

GRIGOLETTO, M. (2002). A resistência das palavras: discurso e colonização britânica na Índia. Campinas: Editora da Unicamp.

GRIGOLETTO, M. (2011). Língua inglesa na mídia brasileira: efeitos da construção de uma memória. In: CORACINI, M. J.; GHIRALDELO, C. M. (Orgs.). Nas malhas do discurso: memória, imaginário e subjetividade. Campinas: Pontes Editores, p. 297-315.

GRIGOLETTO, M. (2013). A língua inglesa em representações: imagens da língua nos discursos político-educacional e midiático e reflexos em modos de subjetivação. 185 f. Tese (Livre Docência). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo, São Paulo.

HERNÁNDEZ, S.; TERRILES, R. (2014). Algunas reflexiones sobre la concepción del sujeto y la epistemología en el Análisis del Discurso de Michel Pêcheux. Décalages. Vol. 1, Iss. 4. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/316094659. Acesso em: 23 out. 2020.

INDURSKY, F. (1990). Polêmica e denegação: dois funcionamentos discursivos da negação. Cadernos de Estudos Linguísticos. v. 2, n. 19, p.117-122. Disponível em: http://revistas.iel.unicamp.br/index.php/cel/article/view/3017/4100. Acesso em: 18 out. 2015.

INDURSKY, F. (1997). A fala dos quartéis e as outras vozes. 2. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2013.

LAGAZZI, S. (2014). Quando os espaços se fecham para o equívoco. Revista RUA. v. 20, Edição Especial 20 anos, p. 155-166. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rua/article/view/8638264. Acesso em: 27 mai. 2021.

LAGAZZI, S. (2008). A equivocidade na imbricação de diferentes materialidades significantes [Resumo]. In: XXIII Encontro Nacional da ANPOLL, Universidade Federal de Goiás (GO). Disponível em: https://dlm.fflch.usp.br/anpoll-grupo-de-trabalho-em-analise-de-discurso-0. Acesso em: 13 jun. 2021.

MAHER, T. M. (2007). A educação do entorno para a interculturalidade e o plurilinguismo. In: KLEIMAN, A. B.; CAVALCANTI, M. C. (Orgs.). Linguística aplicada: suas faces e interfaces. Campinas: Mercado de Letras, p. 255-270.

MARIANI, B. (2004). Colonização linguística. Campinas: Pontes Editores.

MEGALE, A. H. (2018). Educação bilíngue de línguas de prestígio no Brasil: uma análise dos documentos oficiais. The Especialist, v. 39, n. 2, p. 1-17. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/esp/article/view/38653. Acesso em: 3 abr. 2021.

MOURA, S. de A. (2010). Educação bilíngue e currículo: de uma coleção de conteúdos a uma integração de conhecimentos. In: ROCHA, C. H.; TONELLI, J. R. A.; SILVA, K. A. da (Orgs). Língua estrangeira para crianças: ensino-aprendizagem e formação docente. Campinas: Pontes Editores, p. 269-295.

ORLANDI, E. P. (1992). As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. Campinas: Editora da Unicamp.

ORLANDI, E. P. (1999). Análise de discurso: princípios e procedimentos. 4. ed. Campinas: Pontes Editores, 2002.

ORLANDI, E. P. (2005). A análise de discurso em suas diferentes tradições: o Brasil. In: INDURSKY, F.; LEANDRO FERREIRA, M. C. (Orgs.). Michel Pêcheux e a análise do discurso: uma relação de nunca acabar. São Carlos: Claraluz, p. 75-88.

ORLANDI, E. P. (2007). Teorias da linguagem e discurso do multilinguismo na contemporaneidade. In: ORLANDI, E. P. (Org.). Política linguística no Brasil. Campinas: Pontes Editores, p. 53-62.

ORLANDI, E. P. (1988). Linguagem e método: uma questão da análise de discurso. In: ORLANDI, E. P. Discurso e leitura. 8. ed. São Paulo: Cortez, p. 15-28, 2008.

ORLANDI, E. P. (2012). Uma tautologia ou um embuste semântico-discursivo: país rico é país sem pobreza? In: ORLANDI, E. P. Discurso em análise: sujeito, sentido, ideologia. Campinas: Pontes Editores, p. 129-142.

PAYER, M. O. (2007). Processos de identificação sujeito/língua. Ensino, língua nacional e língua materna. In: ORLANDI, E. P. (Org.). Política linguística no Brasil. Campinas: Pontes Editores, p. 113-123.

PÊCHEUX, M. (1983). Discurso: estrutura ou acontecimento. Trad. E. P. Orlandi. Campinas: Pontes Editores, 1990.

PÊCHEUX, M.; FUCHS, C. (1975). A propósito da análise automática do discurso: atualização e perspectivas (1975). Trad. Péricles Cunha. In: GADET, F.; HAK, T. (Orgs.). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. (1990). Trad. Bethania S. Mariani [et al.]. 3. ed. Campinas: Editora da Unicamp, p. 163-252, 1997.

PFEIFFER, C.; GRIGOLETTO, M. (2018). Reforma do Ensino Médio e BNCC : divisões, disputas e interdições de sentidos. Revista Investigações, v. 31, n. 2, dezembro. Disponível em: <https://periodicos.ufpe.br/revistas/INV/article/view/237561>. Acesso em: 2 fev. 2021.

PHILLIPSON, R. (1983). Linguistic imperialism. Oxford; New York: Oxford University Press.

RAJAGOPALAN, K. (1997). Linguistics and the myth of nativity: comments on the controversy over ‘new/non-native’ Englishes. Journal of Pragmatics. v. 27, p. 225-231.

SCARAMUCCI, M. V. R. (2000). Proficiência em LE: considerações terminológicas e conceituais. Trabalhos em Linguística Aplicada. v. 36. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/tla/article/view/8639310. Acesso em: 18 mai. 2021.

STURZA, E. R. (2005). Línguas de fronteira: o desconhecido território das práticas linguísticas nas fronteiras brasileiras. Cienc. Cult. v. 57, n. 2, p. 47-50. Disponível em: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252005000200021&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 22 abr. 2021.

VIEIRA DA SILVA, M. (2013). Língua nacional – escola nacional. In: PETRI, V.; DIAS, C. (Orgs). Análise de discurso em perspectiva: teoria, método e análise. Santa Maria: Editora da UFSM, p. 297-310.

ZOPPI FONTANA, M. G. (2013). Equívocos da/na língua oficial. In: PETRI, V.; DIAS, C. (Orgs). Análise de discurso em perspectiva: teoria, método e análise. Santa Maria: Editora da UFSM, p. 275-295.

Downloads

Publicado

2022-09-12

Como Citar

GRIGOLETTO, M.; FORTES, L. Sentidos em movimento e trabalho do equívoco: uma leitura discursiva da proposta curricular nacional para a oferta de educação plurilíngue. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, SP, v. 61, n. 2, p. 376–390, 2022. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/tla/article/view/8666332. Acesso em: 5 dez. 2022.

Edição

Seção

Artigos