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Chamada para dossiê: Repensando as conexões de arte e ecologia

2022-05-13

Em agosto de 1978, o crítico de arte Pierre Restany viveu por 32 dias em um barco no meio da floresta amazônica junto com os artistas Frans Krajcberg e Sepp Baendereck. Ao atravessar a fronteira brasileira, ele declarou que a Amazônia constituía o último reservatório natural do planeta, o refúgio total da natureza. Baseado no texto resultante dessa experiência,  “O Manifesto Rio Negro do Naturalismo Integral”, o crítico e os artistas deram uma série de palestras no Brasil e Europa, nas quais propuseram a floresta como um modelo intelectual, que poderia desafiar a separação entre o urbano e o natural. Para Restany, a revelação da “natureza total” no ecossistema do Rio Negro possibilitou uma nova percepção da arte, livre das dinâmicas do mercado de arte e da sociedade de consumo. Essa nova visão teria o potencial de gerar uma conscientização planetária e modos alternativos para pensar sobre interdependência e conectividade.

Essas ideias ecológicas, apesar de escritas pelo celebrado crítico francês, eram profundamente enraizadas em debates que aconteciam no interior da América Latina, nos quais se estava reexaminando noções de natureza, práticas indígenas e enfoques antropológicos na arte como uma maneira de definir e produzir uma arte local. Nos anos 1970, para teóricos e artistas como Mário Pedrosa e Nicolás Uriburu, o pensamento ecológico representava um meio para obter simultaneamente conexões globais e inter-latino americanas, no período que testemunhou o triunfo internacional da Land Art e uma crescente consciência ecológica. O manifesto de Restany, portanto, não servia apenas como um indicador dos debates locais. O texto revela, a um só tempo, questões artísticas globais e preocupações ecológicas locais em uma era de rápida devastação ecológica, especialmente na América Latina. Recentemente, preocupações com o aquecimento global, a destruição da Amazônia em escala inédita, os sucessivos desastres ecológicos no Brasil e no mundo, as novas articulações de direitos indígenas, entre outros problemas, colocaram novamente a ecologia no centro dos debates artísticos.

Esse dossiê pretende repensar as relações entre arte e ecologia a partir da perspectiva latino-americana e do Sul Global. Como Jorge Marcone colocou em sua palestra “Jungle Fever: The Ecology of Disillusion in Spanish American Literature” (2007), a noção de ecologia na América Latina está intimamente ligada à mitigação dos danos causados pelo colonialismo, incluindo a preservação de modos de vida tradicionais e a reconexão com sistemas de crença reprimidos pela modernização. Esta perspectiva ecológica depende do que Marcone denomina environmental awareness (conscientização ambiental): a recusa de um conhecimento pré concebido que não dialoga com o mundo em sua diversidade e alteridade. Queremos que essa edição expanda o entendimento sobre como práticas e pensamentos artísticos podem gerar esse diálogo, a partir da perspectiva do Sul Global, que compõe o cinturão tropical e subtropical. Para tal, serão aceitos artigos de diversas disciplinas que desenvolvam temas relacionando arte e natureza, como, por exemplo:

  • Ecologias situadas
  • Arte como um modelo para reimaginar a natureza / A natureza como um modelo para reimaginar a arte
  • Práticas artísticas indígenas e afro-ameríndias que considerem a relação entre agentes humanos e não-humanos
  • O estudo da representação da natureza e da paisagem em arquivos, repertórios, e tradições das artes visuais
  • O estudo da arte contemporânea que envolva sustentabilidade e resistência a mudanças ambientais
  • Ecossistemas naturais e culturais
  • O impacto da arte no pensamento ecológico atual

Prazo de submissão: 31 de julho de 2022.

Organizadoras: Vera Beatriz Siqueira (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e Camila Maroja (California State University).

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Edição Atual

v. 6 n. 2 (2022)
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Publicado: 2022-05-10

Dossiê - Novas, antigas, outras institucionalidades

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